quarta-feira, 25 de abril de 2018

Meninas. Maria Teresa Horta. «Ali tudo é vazio e oco, nada tem ainda história para mim, nem qualquer referência, não percebo as palavras nem os sentimentos dos quais desconheço o significado»

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«O monstro morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha». In Clarice Lispector

Daninha
«(…) Depois das palavras vêm as palavras dos versos, dos poemas, o universo da escrita onde a menina se acoita, sabendo ser lugar de salvação e descobrindo o assombro. Universo, diz no primeiro dia, atalhos, vales, florestas e precipícios. Ensombramentos e claridades de cumes e ventanias. Alagadas planícies a perder de vista. Rios ignotos, camuflados, a tentarem penetrar, descer empapando a terra ou nela se infiltrando de outro modo que não por via das enxadas e das pás, mas pelos espinhos das plantas ou fio e gume de fundações e raízes, seguindo pelos interstícios dos encobertos dons da natureza, que ela tanto gostaria de decifrar. Universo, diz no primeiro dia, a dar conta da existência de um canto, de um coro ou de um cântico, a fazer a gesta de toda a criação. Entre o mundo, os céus, as deusas e os deuses vorazes. Eva? Não, ela é antes. Lilith? Não, ela é anterior a si mesma.
Esquiva, ansiosa e arredia, sentindo todos os entrelaçados odores febris que cada letra guarda, cada metáfora e mito, cada uma das rimas. Nem as odes nem os sonetos nem as sonatas lhe bastam. Deixa que te procure no vulto, diz-lhe Uriel, o anjo da poesia, e ela cede, embora saiba que nem sequer daninha a consideram entre a ordem dos anjos. Todo o anjo é terrível, escreverá séculos mais tarde o poeta; todo o anjo é impiedoso, todo o anjo é sedutor, olhar perdidamente melancólico e esplendorosas asas fulvas que ela não se atreve a comparar às suas, incipientes e pálidas, embora matizadas de carmim e violeta. Mas será a menina quem acabará por desentrançar as luzes e as cores umas das outras, os sons e as lágrimas e o riso na contradição dos sentimentos. Também as paixões e a maldade, a dádiva, a mesquinhez e a inveja. E na pressa do sobressalto, ela entorna os negrumes do tempo. Adivinhando o perdimento do espaço.

Recém-nascida
Estou no berço virado de frente para ela, vagarosa a descobri-la, tão igual àquela que eu imaginara, a onda do seu cabelo dourado espalhado no linho da almofada, a face macerada e muito pálida. Olheiras pisadas a afundarem-lhe o olhar de genciana azul toldado por uma espécie de neblina que entretanto se levantara do rio do seu próprio corpo. Ela dorme? Sim, dorme e depois acorda, volta a adormecer e acorda de novo, como se uma corrente marítima se desprendesse dela, indo e retornando no seu ciclo lunar; a certa altura descubro-a a fitar-me, e então o nosso olhar encontra-se pela primeira vez. Deslumbrada estremeço, arrulhando como uma pomba. Mas, apática, ela logo se afasta de mim, de regresso à correnteza do sono. Semicerro os olhos a tentar distingui-la com mais precisão, mas isso faz com que tudo pareça ainda mais difuso. No entanto não desisto, esmero-me na espera, embora as penumbras do quarto se avolumem à medida que o dia passa.
De vez em quando aparece alguém que se debruça sobre nós, mas ela continua sem dar acordo de si; apesar de tudo ajeitam-na e em seguida inclinam-se sobre mim, e embora feche os olhos depressa levantam-me, limpam-me, embalam-me, dizendo baixo coisas que não entendo: esta menina, coitadinha, deve estar com fome E voltam a deitar-me, aninham-me no berço, puxam a roupa para cima, até ao meu queixo, alisam a dobra curta do lençol, e eu sinto-me de novo enfaixada, asfixiada pela camisinha, a fralda, o cueiro branco, o babete, a mantinha entalada no colchão, o xaile como uma nuvem de lã azul, a tirarem-me o ar. Sem me queixar, aquieto-me como se tivesse pegado no sono; então acabam por desistir. Aturdida, adormeço levemente, para logo despertar em sobressalto, temendo que ela tivesse partido, abandonando-me naquele lugar desconhecido, inóspito, onde me aquieto, atemorizada.
Ali tudo é vazio e oco, nada tem ainda história para mim, nem qualquer referência, não percebo as palavras nem os sentimentos dos quais desconheço o significado, mas dou conta do meu imaginário, numa correnteza sem fim por dentro da linha do pensamento. Pouco a pouco estou a perder a memória do meu começo, da minha origem, da forma como cheguei até aqui. Para mim ainda não existe passado, eu mesma me desconheço e nem entendo o sumiço dos odores espessos e das exultantes cores sanguíneas que desejaria ter memorizado para sempre, nem o porquê do súbito alvoroço do meu coração. O que terei esquecido dentro da minha mãe, que me transmite esta imensa sensação de falha, de falta tão dilacerante e absoluta e absurda? Perdimento e estilhaços? Volto a abrir os olhos na claridade difusa do quarto, a tentar reencontrar-me nesta inusitada imobilidade de boneca aquietada debaixo do lençol fininho, de um tom de rosa muito claro e quebradiço. Aquilo que eu não sei não tem ruído». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «Com efeito, mestre. E por isso devemos render-nos perante a grandeza da sua criação, e perante a luz. A luz?»

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O Algarismo e o Número
«(…) Necessitamos de uma nova catedral, um templo de luz, uma catedral em que o poder criador de Nosso Senhor se manifeste em todo o seu esplendor e com toda a sua força, pensou. Ao sair da catedral deparou com o mestre Arnal Rendol, que regressava com a sua filha Teresa da abadia de Las Huelgas. O pintor e a filhita vinham montados numa mula que caminhava estafada. Boas tardes, Arnal, saudou o bispo. Senhor bispo, o mestre Rendol inclinou a cabeça e tirou o chapéu, ouvi dizer que partia para a Alemanha para ir buscar a futura rainha. Assim é. Dona Berenguela encarregou-me da custódia da princesa Beatriz. Sois um afortunado. Arnal desceu da mula, que tinha feito parar, puxando as rédeas. Sou-o por usufruir da confiança de suas majestades, disse o bispo. Que rota ides seguir? Irei pelo Caminho Francês. Quero chegar a Paris e dali dirigir-me para leste, até ao Império. É o caminho mais seguro. A Occitânia ainda está revoltada. Apesar da cruzada que Sua Santidade pregou contra os cátaros e da energia que o nobre Simão Monfort empregou em acabar com a heresia, esses endemoninhados hereges continuam empenhados em sustentar o seu erro e em se manterem em pecado. Não merecem outra coisa que não a fogueira.
Arnal teve de se conter para não se delatar ante o bispo. Desde que saíra de Pamiers fugindo da perseguição dos cruzados de Simão Monfort, não tivera oportunidade de reviver o seu passado cátaro. Uma vez instalado com a mulher em Burgos, tivera de se comportar e actuar como um fervoroso católico, mas, no fundo do coração, os seus sentimentos cátaros conservavam-se muito arreigados. Teve de fazer um esforço para não responder ao bispo e não revelar as suas íntimas crenças. Na verdade, tenho estado a meditar no interior da catedral e reparei no vosso fresco da Visitação da Virgem. É muito bom. Obrigado, Sua Eminência, senhor bispo Maurício, agradeceu Arnal. Mas que pena ter que ser destruído. Como!? Quero construir uma nova catedral em honra de Santa Maria, e desejo que seja edificada segundo o novo estilo francês. Esta será derrubada, e com ela, mestre Arnal, os vossos frescos. Arnal Rendol mordeu a língua; passados alguns instantes de meditada pausa, considerou: bem, só as obras de Deus são eternas. Com efeito, mestre. E por isso devemos render-nos perante a grandeza da sua criação, e perante a luz. A luz?
Sim, a luz. Fixai-vos no céu. Está a entardecer e a luz debilita-se por momentos. O que há um instante era luminosidade, dentro de momentos será escuridão. Entendeis a mensagem de Deus? Vós, mestre Arnal, sois um artista, reflectis nas vossas obras parte da majestosa plenitude da criação divina: pintais homens, mulheres, animais, paisagens, e fazei-lo segundo vos dita a vossa imaginação. De certo modo, sois um imitador da criação divina das coisas. Nunca tinha pensado que o meu trabalho fosse imitar Deus. Pois é-o, é-o. Vós, os artistas, fostes dotados com um dom extraordinário, uma qualidade que vos permite reflectir, ainda que seja palidamente, a grandeza da Criação. A nossa arte é apenas urna habilidade. Não, é mais, muito mais do que isso. Deus manifesta-se através das vossas mãos, é Ele quem as dirige. Talvez, senhor bispo, talvez.
Não duvideis disso, mestre Arnal, não duvideis disso. Arnal Rendol despediu-se do bispo Maurício. Pegou nas rédeas da mula e seguiu para casa. Pai, disse-lhe Teresa, tu és como Deus? Não, filha, claro que não. Mas o senhor bispo disse que... Dom Maurício apenas disse que nós, os artistas, tentamos imitar a obra de Deus. Ao chegar a casa, Amal fechou a azémola no estábulo e ordenou a um dos aprendizes que viviam com ele que tirasse os arreios ao animal e enchesse a manjedoura de palha fresca e o bebedouro de água. O dia tinha sido muito duro. As monjas de Las Huelgas tinham-lhe encomendado uma pintura mural que representasse as bodas de Caná, e queriam tê-la pronta depressa, antes que o rei Fernando se casasse com a princesa alemã». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Se não fosse uma menina, eu diria que ainda seria uma pesquisadora, uma escriba. Eles estudam isso o dia inteiro»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Contemplando-o, vinham à sua cabeça as histórias e canções de como Deus esmagava os seus inimigos. Ali, na sua frente, fiéis, apavorados, doavam os despojos do que haviam obtido a esse rei terrível, era assim que entendia o sacrifício de animais, as oferendas e as nuvens de incenso. Significavam medo. Quem entrasse na sala errada podia ser morto. Quem usasse moedas proibidas podia ser punido. E para quem ousasse aventurar-se a entrar no santuário propriamente dito, a punição era superior à da morte. Ela queria encontrar no seu Deus amor, orgulho e adoração, mas, em vez disso, o que havia era medo. Um grupo grande de sacerdotes levíticos, vestindo paramentos imaculados, encontrava-se nos degraus que separavam o Pátio das Mulheres do Pátio dos Israelitas e do Pátio dos Sacerdotes. Cantavam belíssimos hinos, acompanhados por flautas, e, além de suas belas vozes, profundas, ouviam-se as vozes doces das crianças, a quem também era permitido cantar. Outros sacerdotes recebiam as oferendas e conduziam aos altares, por rampas, os animais a serem sacrificados. Cestas com cereais, dispostas em prateleiras, eram apresentadas ao Senhor numa cerimónia especial. Por trás das cabeças dos sacerdotes, Maria via, subindo do altar, a fumaça das oferendas sendo queimadas. O cheiro forte do incenso misturava-se, mas não eliminava, ao cheiro da carne e da gordura queimadas.
Quando foi a vez das oferendas do seu grupo de galileus (seis cordeiros machos, dois bodes, um touro, uma cesta de frutas e dois pães feitos com o trigo da nova safra), Maria pensou em mandar, sub-repticiamente, o ídolo de rosto de marfim. Livrar-se dele, agora. Seria sacrilégio tê-lo trazido aqui? Parecia que a queimava, sob as camadas de pano em que o tinha escondido. Mas isso, naturalmente, era a sua imaginação. Se o entregar, nunca mais o terei de volta, pensou. Irá embora para sempre. E talvez fosse um insulto a Deus se o misturasse às outras oferendas. Vou colocá-lo no bolso e, quando chegar em casa, tornarei a olhar para ele, para me lembrar. Depois vou jogá-lo fora antes que o meu pai o veja e me castigue.
À saída, pelo portão principal, Maria e sua família tornaram a passar pela Corte dos Gentios. Era tudo tão grande, tão fora do comum, que dava vertigens. Lembrou-se das histórias que seu pai contava durante a celebração do Sabá. Se eu entrasse no Templo, será que veria a Arca da Aliança e as tábuas dos Dez Mandamentos?, perguntou Maria a Silvanus. E aquela jarra em que é preservado o maná? Arrepiava-se ao pensar nessas coisas tão antigas. Não iria ver nada!, disse Silvanus, asperamente. Raramente Maria havia ouvido Silvanus falar nesse tom de voz. Não há nada. Foi-se tudo quando o Templo de Salomão foi destruído pelos babilónios. Há, é claro, a lenda de que a Arca foi enterrada em algum lugar. Naturalmente. Sempre queremos acreditar que não perdemos alguma coisa, é sempre assim. Tinha o rosto triste, no meio de todos os felizes peregrinos. Mas perdemos. Então, o que há lá dentro? Nada. Está vazio.
Vazio? Toda essa imensidão, essa imponência, todas essas regras, para adorar nada? Isso não é possível!, exclamou Maria. Não faz sentido. Foi isso o que pensou o general romano Pompeu quando conquistou Jerusalém há 50 anos. Então, ele foi lá dentro, para ver. E quando não viu nada, ficou perplexo com os judeus. O nosso Deus é misterioso. Nem nós o entendemos direito, mas, por adorá-lo, tornamo-nos um povo que nenhum outro compreende. Fez uma pausa.
Mas Maria não desistia. Mas porque temos, então, um templo, se as coisas preciosas que estavam lá, que serviam para adorar a Deus, não estão mais? Foi Deus que pediu que fosse construído? Não. Mas imaginávamos que o tivesse feito, pois todos os outros povos têm templos, e nós queríamos ser como eles. Isso é verdade? Parecia extremamente importante para Maria saber disso. O barulho das pessoas em volta tornou difícil ouvir as palavras do seu irmão. Deus não deu instrução alguma a Salomão ou a David para que fosse construído um templo. E o próprio Salomão o reconheceu, quando disse: mas, de facto, habitaria Deus com os homens na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei. E agora, isso te satisfaz? Olhou-a com carinho. Se não fosse uma menina, eu diria que ainda seria uma pesquisadora, uma escriba. Eles estudam isso o dia inteiro». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

O Número de Deus. José L. Corral. «… numa oficina como aprendiz, coordenando o trabalho com os estudos, para que, quando obtivesse o grau de oficial, tivesse uma bagagem que lhe permitisse aceder quanto antes ao grau de mestre»

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O Algarismo e o Número
«(…) Os mestres de Chartres ensinavam que Deus-pai era o primeiro e o mais perfeito dos geómetras, e assim representavam-no manejando um compasso, à maneira de um arquitecto que estivesse a criar o mundo a partir dos números e das figuras geométricas. Deste modo, o mistério da Trindade representava-se com um triângulo e a relação do Pai com o Filho, uma relação entre iguais, com a figura de um quadrado. E dessa relação os arquitectos estabeleciam aquilo a que chamavam o número de Deus, a relação geométrica harmónica e perfeita cuja aplicação permitia construir as novas catedrais da luz. Na biblioteca catedralícia havia textos de Platão, Cícero, Séneca, Boécio e Macróbio, todos eles devidamente anotados e comentados pelo mestre Bernardo de Chartres, que tinha descoberto Platão lendo Séneca e os seus preciosos comentários sobre a teoria platónica das ideias. Bernardo cristianizara as propostas filosóficas de Platão, identificando as ideias com o pensamento divino e, a partir daí, explicava a criação da matéria e a concepção do mundo.
O jovem Henrique de Ruão foi educado na teoria das ideias de Platão. Aos nove anos, assim que ingressou na escola, ensinaram-no a ler e a escrever e começou a estudar Latim, necessário para ler os livros da biblioteca. Depois, aprenderia Matemática, Geometria, Álgebra, Filosofia, Gramática, Retórica e Teologia. O pai preparou-lhe um plano de estudos para fazer dele um grande mestre-de-obras. Até aos treze anos aprenderia aquelas disciplinas imprescindíveis ao conhecimento, depois trabalharia numa oficina como aprendiz, coordenando o trabalho com os estudos, para que, quando obtivesse o grau de oficial, tivesse uma bagagem que lhe permitisse aceder quanto antes ao grau de mestre.
Para isso teria de ir estudar para Paris e visitar as obras das principais catedrais que estavam a ser construídas no reino de França. Só assim poderia comparar diferentes tipos de trabalhos, oficinas, materiais e técnicas, e dominar todos os aspectos da sua complexa disciplina. Henrique aprendia depressa; algumas questões não tinham segredos para ele, pois o pai tinha-lhe ido explicando os mistérios do ofício. Nós, os mestres-de-obras das catedrais, somos um grupo especial de homens, dissera-lhe numa ocasião. Deus pôs nas nossas mãos uma habilidade que muito poucos homens são capazes de desenvolver. Foi-nos concedido o dom de criar uma casa para morada de Deus, somos nós que construímos o seu templo, e esse privilégio é extraordinário.

O pior do Inverno já tinha passado. Em fins de Fevereiro de 1219, o rei Fernando e a sua mãe, a rainha Berenguela, reuniram-se em Burgos com o bispo Maurício. O prelado ainda estava aborrecido porque semanas antes se vira obrigado a excomungar os monges do poderoso mosteiro de São Domingos de Silos, que tinham recusado a reforma do cenóbio por ele proposta. Maurício, o bispo, não estava disposto a abdicar da sua autoridade como bispo da sede burgalesa e agira com dureza contra os monges do cenóbio. Para a rainha Berenguela essas disputas entre clérigos pareciam-lhe questões de muito pouca relevância. Ela estava agora ocupada em casar o seu filho rei de Castela com a princesa alemã Beatriz e não queria deixar que as suas energias fossem desperdiçadas em assuntos que considerava menores. O bispo Maurício acabava de receber a incumbência definitiva de partir para o Norte da Europa para ir buscar Beatriz e a custodiar na sua viagem até Burgos.
O bispo passeava entre a penumbra das naves da catedral. De vez em quando levantava a vista e contemplava as espessas abóbadas e as maciças paredes de pedra lavrada. Aquele edifício sempre lhe tinha parecido denso, frio e escuro, mais próprio de um templo do Maligno do que de casa de Deus. Os escassos e estreitos vãos, fechados com finas lâminas de alabastro, apenas deixavam passar débeis feixes de luz amarelenta, que em seguida se difundiam no ar criando um mundo de penumbras. Recordava com inveja a sua estada em Chartres, quando visitou as obras da nova catedral, cujas paredes se mostravam rasgadas por enormes vãos dispostos de modo a deixar entrar a luz a jorros, para inundar o templo com a luminosidade que só Deus era capaz de criar. Vez atrás de vez, o bispo Maurício repetia na sua cabeça o que tinha lido em tantas ocasiões nas sagradas Escrituras: que Deus era a luz, a luz do mundo». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Sevias, insisti eu, não pode, pelo menos, dizer-me o que aconteceu aos objectos tribais? Ele estudou o céu e não disse nada»

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A Gruta
«(…) Os espíritos dos antepassados não gostariam de me ver ali, explicou ele. Seriam contados segredos. Havia coisas que eu não devia saber. Truculentamente, pensei para comigo: se não souber aqui, esta noite, as coisas secretas, é possível que nunca venha a sabê-las. Era agora ou nunca. Fora da cubata, um grupo de anciãos estava a olhar ansiosamente para o céu da noite, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado à parede. O seu rosto enrugado mostrava sinais de preocupação. A sua preocupação não era apenas a chuva ou a falta dela, embora isso fosse uma questão crucial tanto para ele como para os outros, na verdade, era a sua própria vida e a da sua família que dependia disso, mas também eu e o meu desapontamento por não ser admitido em todos os segredos tribais. Já lhe tinha dito que o meu trabalho de campo não tinha rendido tanto como esperava.
De cabeça inclinada e com as mãos postas num gesto de súplica, perguntou-me com o esboço de um sorriso: Mushaví, achaste o que procuravas no tempo que estiveste connosco? Distinguia-me muitas vezes com o elogioso nome tribal Mushavi, que geralmente os lembas usam só entre eles e que pensei que talvez pudesse estar ligado a Musawi, a forma árabe de seguidor de Moisés (Musa). Talvez estivesse a tentar seduzir-me chamando-me Mushavi, mas o resto da sua pergunta era incompreensível. Ele sabia perfeitamente que os segredos tribais ainda estavam, na sua maioria, intactos. Sorri e, com toda a paciência que consegui reunir, disse: sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que não me contou. E não se esqueça de que os anciãos de todos os clãs concordaram em que me devia ser dado acesso a tudo.
Sim, respondeu ele gravemente, mas já lhe expliquei muitas vezes que independentemente do que foi dito nessa reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, encantamentos. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Dissemos-lhe isso. O meu irmão, o chefe, disse-lhe isso. Os outros disseram-lhe isso. Teriam de o matar, Mushavi, se aprendesse essas coisas sagradas. É a lei. O seu rosto enrugado tornou-se quase uma expressão de preocupação e ansiedade. Sevias era um homem bom. Em todos os meses que tinha passado no seu kraal, apesar da seca e da incerteza da situação política, tanto dentro da tribo como no país em geral, apesar das dificuldades da família, sempre tinha sido calmo, amável e digno. Percebi agora que nunca tinha sido mais feliz na minha vida do que quando estava sentado a escrever debaixo da árvore grande no kraal de Sevias. Esfregou os pés nus e endurecidos na terra ressequida. Mas quanto aos objectos tribais?, insisti eu. Aquelas coisas que trouxe consigo do norte, de Senna. Falaram-me nisso mas ainda não vi nada disso.
É verdade, disse ele. Trouxemos objectos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objectos de Senna. Objectos sagrados, importantes, de Israel e de Senna. Senna era a cidade perdida original em que a tribo mantinha que tinha habitado depois de sair da Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha, o chefe erudito da tribo lemba da Africa do Sul, já me tinha contado muita coisa acerca da lenda de Senna. A tribo viera de Senna pelo mar. Ninguém sabia onde era. Tinham atravessado Pusela, mas também ninguém sabia onde era ou o que era. Tinham vindo para África, onde reconstruíram Senna duas vezes. Em suma, foi isso.
Sevias, insisti eu, não pode, pelo menos, dizer-me o que aconteceu aos objectos tribais? Ele estudou o céu e não disse nada. Depois, murmurou: a tribo está espalhada por uma vasta área. Sabe, uma vez infringimos a lei de Deus. Detestamos ratos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus pelas nações de África. Assim, os objectos espalharam-se e estão escondidos em diversos locais. E o ngoma? Onde pensa que possa estar?, perguntei eu. Era um tambor de madeira usado para guardar objectos sagrados. A tribo tinha seguido o ngoma, transportando-o aos ombros, na sua visita à África. Afirmam tê-lo trazido de Israel há tantos anos que ninguém se lembra quando. Segundo as suas tradições orais, levavam o ngoma à frente deles para combater e ele tinha-os guiado na sua longa caminhada através do continente». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Olhou para mim e depois indicou-me que devia levantar-me e deixá-lo. Triste e perplexo com as suas palavras, voltei para o banco, para o meu bloco de apontamentos»

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A Gruta
«(…) O chefe estava a morrer. Toda a gente o dizia. Tinha um ar cinzento e doente. Fez-me um gesto indicando que devia ir para ao pé dele. Pegou-me na mão e sussurrou-me ao ouvido: os antepassados vieram de Israel. Vieram de Senna. Estão aqui connosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna. Senna era a cidade perdida de onde tinham vindo e também era o 1oca1 para onde esperavam ir quando morressem. O seu rosto, iluminado pela luz bruxuleante das velas, estava enrugado com os traços da idade e da doença: os olhos estavam tapados por papadas mosqueadas de carne ligeiramente corada. Olhou para mim e depois indicou-me que devia levantar-me e deixá-lo. Triste e perplexo com as suas palavras, voltei para o banco, para o meu bloco de apontamentos, para a máquina fotográfica, e para o gravador. Estava ali na aldeia há tanto tempo que começava a sentir-me em casa, um deles. Tinha bebido uma boa quantidade da cerveja chibuku deles. Após os primeiros tragos, torna-se mais ou menos aceitáve1 e, passado um bocado, absolutamente aceitável. Achei que não era altura para me sentar a um canto a tomar apontamentos e a gravar música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Tirei a camisa a fim de, pensava eu, me misturar com os homens e as mulheres seminus cujas mórbidas sombras andavam a saltar descontroladamente pelas paredes e que estavam a cair numa espécie de transe a toda a minha volta. A mulher mais velha do chefe atravessou a cubata, inclinou-se para mim com os seios descaídos e enrugados a roçarem-me no ombro, e sussurrou alguma coisa incompreensível em xona, a língua da tribo xona que predominava e no seio da qual viviam os lembas do Zimbabwe.
Comecei a dançar ao ritmo repetitivo dos tambores. Uma das mulheres mais jovens do chefe estava a dançar com os seios nus à minha frente, balançando-se de modo que evidenciava os efeitos do álcool, suplicando aos antepassados, percorrendo os seios com as mãos e, depois, a barriga e as pernas. As tamborileiras aceleravam o ritmo dos tambores. Outra mulher em transe, com os olhos inflamados, libertou-se das roupas e foi para o centro da cubata. Os homens puseram-se à sua volta a admirar-lhe o corpo magro e os seios cheios, incitando-a a continuar. Ela está a falar com os antepassados, disse-me Sevias ao ouvido. Em breve eles responderão. Quando se ouvirem as vozes deles é melhor ir-se embora.
Cerca da meia-noite o ambiente mudou. Imaginei que era chegada a hora dos feitiços do culto e das orações secretas. Essas eram as coisas bem guardadas. Esses eram os códigos orais que governavam as suas vidas e que, sem dúvida, detinham os indícios do seu passado de que eu andava à procura. Esses códigos e feitiços eram, para mim, o cerne da questão. Era nisso que queria participar. Era para isso que ali tinha ido. Os meus braços ergueram-se; o meu rosto virou-se para o tecto de colmo. O suor corria-me em bagas. Tive uma grande sensação de excitação. Tinha sido aceite. Era um deles. Os antepassados iam descer e eu estaria lá para observar o que vinha a seguir. Nunca ninguém de fora tinha observado aquilo. Dentro da cabeça senti abrir-se uma espécie de canal que parecia ser um canal de comunicação com os antepassados israelitas da tribo.
Estava a rejubilar com a eficácia da minha metodologia de investigação de cinco estrelas quando senti um punho bater-me de lado no rosto. Era o punho da mulher mais velha e mais forte do chefe. Caí no chão, em cima do corpo deitado e malcheiroso do maior bêbado de Mposi, uma espécie de vagabundo chamado Klopas que eu já tinha encontrado e cheirado muitas vezes. Durante alguns segundos, perdi a consciência. Fui levado para fora da cubata por alguns dos homens e encostado ao lado da cubata do chefe. Eee..., aborreci a mulher do chefe, disse eu. Lamento. Não lamentava nada. Sentia-me furioso.
Mushavi, disse Sevias inclinando-se por cima de mim. Não aborreceste ninguém. Este golpe foi apenas as boas-vjndas dos antepassados. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os antepassados não o quisessem aqui, não lhe teriam dado um golpe ligeiro como este, tê-lo-iam desfeito em pedaços. Agora, tenho de ir porque os antepassados estão a vir ter connosco. Os não iniciados têm de se ir embora». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Agora sente-se forte, imaginar vitórias animou-o, mas logo se lembra do que ouviu Egas ou Ermígio dizerem, que sem Paio Soares a comandá-las as tropas…»

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Coimbra, Julho de 1117
«(…) Uma mãe tem de dar carinho, estar lá, beijar os filhos. Caso contrário, não é uma mãe, é mãe só de nome. Ora, dona Teresa nunca estava. Via o filho uma ou duas vezes por ano, quando ia a Lamego ou a Viseu, ou ele ia a Coimbra, mas limitava-se a olhar para ele e a dizer: estais mais crescido. E era tudo. Nunca lhe dava um beijo, embora exigisse que ele lhe beijasse a mão. Não era grande coisa como mãe. Nunca foi. A verdadeira mãe do Afonso Henriques foi sempre a minha mãe, Dordia Viegas. Ela mimava-o, penteava-o, vestia-o, à noite levava-o para a cama e fazia-lhe o sinal-da-cruz na testa, como a mim, ao Afonso ou ao Soeiro. Tratava-o como nos tratava a nós três, seus filhos. Com ternura, como uma mãe deve. E ele retribuía, amava-a como nós a amávamos, sempre de roda dela, a pedir coisas, a reclamar atenção. Uma vez, o Afonso Henriques disse-me: Deus é injusto. O meu pai morreu, tinha eu três anos, mal o conheci, só às suas barbas cinzentas e falantes. E Dordia, a minha única mãe, morreu naquele Verão do cerco a Coimbra!
Para minha grande tristeza e de toda a família dos Moniz de Ribadouro, Dordia Viegas já arfava muito, tinha de sentar-se constantemente, e à mesa estava sempre com um ar calmo de mais, como quem tinha muitas dores mas sofria em silêncio, para não incomodar os outros. Tanto o meu amigo como eu sabíamos que, se ela subisse ao Céu, ninguém mais nos iria dizer: vinde dar-me um beijo! Isso entristecia-o muito, dizia-me o meu melhor amigo, e era por isso que fazia um esforço para imaginar combates sangrentos logo de manhã, no alto do castelo de Coimbra. Enquanto o arqueiro suspende a sua ronda, a um canto da torre, o menino mira de novo a faustosa tenda do califa, e promete a si próprio que quando for grande o vai derrotar. Terá de aprender a usar a enorme espada de seu pai, a montar, a vestir a cota de malha e a armadura, mas será o mais hábil, corajoso e destemido cavaleiro do Condado Portucalense.
Agora sente-se forte, imaginar vitórias animou-o, mas logo se lembra do que ouviu Egas ou Ermígio dizerem, que sem Paio Soares a comandá-las as tropas de dona Teresa pouco valem, pois Bermudo de Trava, seu marido, não nasceu para empunhar uma espada! Ontem, escutou também as meninas árabes a intrigarem, aos risinhos, nas suas costas: A rainha não gosta do Bermudo, gosta é do irmão, do Fernão! O menino já reparou que dona Teresa também nunca beija o marido em público, eles nem se tocam, não há uma festa carinhosa, uma ternura visível. Nunca viu sequer um abraço e sempre atribuiu essa falha à maneira de ser de dona Teresa. Dordia diz que ela é arisca, quando falam na condessa que agora se diz rainha, o que é raro, pois Dordia evita falar dela.
A esta hora, quando o Sol mal nasceu a leste, e enquanto o arqueiro se volta a aproximar dele, dona Teresa ainda deve estar a dormir. Costuma levantar-se tarde, ao contrário do seu marido galego, que dorme noutro quarto. O menino não consegue conversar com Bermudo, pois ele raramente fala. O personagem parece mudo e tolo, só abana a cabeça, confirmando qualquer ordem da autoritária esposa. Tudo o que Bermudo diz é: bom dia. E, horas depois: boa noite». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 22 de abril de 2018

Quatro Orações Camonianas. Aníbal Pinto Castro. «Macedo podia, pois, afirmar, sem receio de contradita, que os poetas são os melhores mestres da Lingua e aquelles a quem ella he mais devedora, nelles a devemos buscar como em fonte pura»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) O autor pretendia nada menos que reformar a língua portuguesa, para o que, aliás, lhe não faltavam bons conhecimentos, sem embargo de curiosas fantasias. Pois, em seu entender, tal reforma só poderia fazer-se com êxito sob a égide e a autoridade linguística de Camões, porquanto, acentuava, entre todos os nossos escritores, nenhum havia a quem ela fosse mais devedora, e Os Lusíadas eram, para os poetas, para os prosadores e para os simples falantes alheios a pretensões estéticas, o melhor dicionário que se lhes podia aconselhar. Não se estranhe, por outro lado, que uma intenção tão explicitamente normativa e atenta ao simples uso coloquial da língua tomasse por paradigma um poeta. A ideia romântica (mas falsa) de que é o povo que faz a língua não ganhara ainda direito de cidade.
Macedo podia, pois, afirmar, sem receio de contradita, que os poetas são os melhores mestres da Lingua e aquelles a quem ella he mais devedora, nelles a devemos buscar como em fonte pura. E a sua função era dupla, pois não só a leitura continuada das suas obras propiciava uma aquisição mais completa e perfeita do sistema linguístico do português, como serviam de pedra de toque para aferir a qualidade da língua, isto é, o seu grau de pureza o vernaculismo em cada momento da sua evolução. Ao longo de toda a obra, vai a poesia camoniana, muitas vezes em confronto com a Gerusalemme Liberata, de Tasso, servir de guia e modelo para a renovação da língua portuguesa, considerada nos seus vários sistemas da criação lexical à ordem sintáctica.
Mas, para além de Macedo, quantos não recorreram a Camões para ensinar ou penetrar os segredos da língua, nos seus vários estilos? É Francisco Leitão Ferreira, que nas lições dadas, na Academia dos Anónimos, chamando-lhe grande, inimitável, judicioso, Corifeu da nossa poesia, sempre singular, príncipe dos épicos ou cisne canoro em toda a poesia, o toma para exemplo da transformação da significação própria dos vocábulos na sua significação metafórica e fundamenta no seu domínio da língua a perfeição e facilidade com que aplicara, na Épica como na Lírica, as regras da comparação (conferiu Camões estas ideias, acerca da teoria da comparação, e descobrindo hum fundamentos verisimil, para inferir a semelhança, lançou mão das cores, e pincel poetico, o com valentia de figuras, sublimidade de estylo, e magnificencia de palavras, atadas a sonoros e elegantes numeros, comparou a desesperação à tempestade... Segue-se, como ilustração, destas afirmações uma oitava da égloga IV, a rústica contenda desudada posta na boca do pastor Aliento, além de vários outros passos das Rimas e d’Os Lusíadas).
É Francisco José Freire que nas Reflexões sobre a língua portuguesa, escreveu:

tal foi Luís de Camões, honra imortal, não só da poesia, mas da linguagem portuguesa, porque assim na sua Epopeia, como em todas as demais obras poéticas, praticou uma admirável clareza, propriedade, elegância e energia de língua. Quem lê a Camões quase que lhe parece estar lendo um Poeta da idade presente pelo que diz respeito à pureza, e correcção da nossa gramática.

É Correia Garção que, em consonância com o pensamento da Arcádia, e para condenar os vícios da poesia de Francisco Pina Melo, o Corvo do Mondego desgarrado da ortodoxia observada pelos pastores do Ménalo, recomendava na Epístola I,

Se à sombra dos loureiros sempre verdes:
Usa da pura língua portuguesa
Que aprendido já tens no bom Ferreira
No Camões imortal, em Sousa e Barros»

In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia de APHistória/JDACT

Ensaio sobre os Latinismos dos Lusiadas. Carlos Eugénio Correa Silva (Paço d’Arcos). «… precede, mas que é preciso tratar ex professo: há ou não provas de que Camões era muito lido nos clássicos latinos?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mais ainda. Estamos num terreno movediço: Qual é a separação entre a língua popular e a literária? A demarcação é relativamente fácil de fazer no campo da fonética e do léxico, visto os vocábulos populares obedecerem às leis fonéticas e os literários delas se emanciparem, imporfando directamente a forma latina da palavra. Mas no campo da sintaxe?... Qual como, sem estar em correlacção com tal, que nos aparece a toda 3 hora no poema,é latinismo ou não? Há argumentos pró e contra, como adiante se verá. O próprio Epifânio Dias que escreveu uma Sintaxe histórica portuguesa não delimitou nesse compêndio a língua literária da popular; registou. paralelos com construções latinas, mas todos esses paralelos são de origem erudita?..., Tacuit.
E no domínio da semântica?... Se certos casos são palpáveis, outros há que são enigmáticos… Fingir, fabricar, gostar, provar, (trans.) e quantos outros exemplos; que se registam no poema. E, como fonte, o Dicionário de Morais, tão útil por vezes, neste domínio ainda mais perplexos nos deixa. Todos estes argumentos põem em relevo a dificuldade do assunto. O trabalho definitivo sobre os latinismos dos Lusíadas, isto é, sobre a contribuição que nesse campo, o poema trouxe ao enriquecimento da língua literária, só poderá ser feito no dia em que, estiver suficientemente delimitada a língua literária da popular nos domínios da sintaxe e da semântica; houver monografias sobre o enriquecimento da língua operado pelos autores do século XV e pelos quinhentistas anteriores a Camões.
Posto isto, há um problema que já está contido implicitamente em toda a exposição que precede, mas que é preciso tratar ex professo: há ou não provas de que Camões era muito lido nos clássicos latinos? A demonstração desta hipótese simplifica grandemente uma argumentação de carácter filológico que consista em registar latinismos glóticos nas obras do grande épico. O assunto não pode ser esgotado nesta introdução, por dois motivos; a) é um assunto de carácter literário que não quadra com a índole glotológica deste trabalho; b) só por si daria, ensanchas para uma série de monografias de carácter literário, quais seriam: o Vergilianismo dos Lusíadas, Reminiscências, de Ovídio em Camões. Que prosadores latinos teria lido Camões?, etc..
No entanto, digo vantagem, não digo necessidade absoluta. Poder-se-ia mesmo inverter o sentido, da pesquisa e partir da verificação de latinismos glóticos no poema para a prova da cultura humanística do poeta, convém traçar o problema. Poder-se-ia afirmar à priori que Camões era lido nos clássicos, latinos, visto tratar-se de um homem de letras do Renascimento. Mas não é preciso; já Manuel Lira em 1584 registara lugares de clássicos latinos imitados pelo poeta; depois o problema foi traçado e quási esgotado por Faria Sousa, há trezentos anos. No entanto, já bem perto de nós, houve quem rejeitasse ou pelo menos pusesse em dúvida a demonstração de Faria Sousa: foi Sousa Viterbo.
Diz ele: Manuel Faria Sousa foi quem mais profundamente estudou o poeta e os seus comentários revelam uma erudição tão assombrosa como esmagadora e estéril. Querendo levantar a memória do poeta, imaginando prestar-lhe um grande serviço, não fez, a meu modo de ver, senão deprimir-lhe o talento, apoucando-lhe a sua originalidade, no confronto e paralelo constante das passagens camoneanas com similares de outros poetas. Por muito grande que fosse a erudição do cantor dos Lusíadas, custaria ainda assim a admitir que ele tivesse tido tempo e paciência para ler tantos autores. Não foram longos os anos do seu trânsito na terra, esses mesmos ocupados e agitados, e mal se compreende que a sorte lhe reservasse tão apetecidos e apetitosos ócios literários. Isso era bom para um Sá de Miranda, a quem o mimo de duas rendosas comendas, além de outros bens de fortuna, permitiam filosofar senecamente no remanso florido dos riozinhos pitorescos, que lhe serpenteavam a solarenga propriedade minhota» In Carlos Eugénio Correa Silva (Paço d’Arcos), Ensaio sobre os Latinismos dos Lusiadas, 1931/35, imprensa da U. de Coimbra, 1972, Imprensa N. Casa da Moeda, Separata de O Instituto, vols. 79 a 82, à memória de Augusto Epifânio Silva Dias.

Cortesia de UdeCoimbra/INCM/JDACT

Quatro Orações Camonianas. Aníbal Pinto Castro. «… com esta sua obra ficou enrequecida grandemente a lingoa Portuguesa; porque lhe deu muitos termos novos, e palavras bem achadas…»

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Camões e a Língua Portuguesa
«(…) Dados, porém, o grau de capacidade expressiva que atingira e a qualidade estética do discurso que transmitia, a poesia camoniana há-de servir, no plano diacrónico, não apenas de charneira entre dois momentos fundamentais da evolução do português, mas imprimir um decisivo impulso a essa evolução e oferecer-lhe um padrão ou norma seguros para a realização da língua, tanto escrita como falada, mantendo vivo um ideal de correcção e venustez, e constituindo uma força centrípeta contra os factores de desgaste que permanentemente transformam os sistemas linguísticos.
A consciência desta importância e deste papel da poesia de Camões no enriquecimento e na evolução da língua portuguesa não tardou, aliás, a manifestar-se de maneira bem explícita, se bem que, por vezes, não isenta de polémica. O testemunho de Manuel Severim Faria é desse facto uma prova, entre muitas, bem concludente. Ao tratar nos Discursos vários políticos, publicados pela primeira vez em 1624, das partes que ha de ter a epopeia, e de como Luís de Camões as guardava nos seus Lusíadas, afirmava, com efeito, o erudito Chantre de Évora:

com esta sua obra ficou enrequecida grandemente a lingoa Portuguesa; porque lhe deu muitos termos novos, e palavras bem achadas que depois ficarão perfeitamente introduzidas. Posto que nesta parte não deixárão alguns escrupulosos de o condenar, julgando-lhe por defeito as palavras alatinadas que usou no seu poema. Porem desta censura o absolverà com facilidade quem tiver noticia das leis da poesia, e da licença, que he concedida aos Poetas para fingir, e dirivar novas palavras, porque tem obrigação de falar ornadamente, não podem deixar de enriquecer seus versos com palavras, ou densadas, ou novas, ou transferidas, que são as condições, que ensinam os Retoricos para a oração ficar com magestade, e fora do estilo humilde e vulgar.

E ao refutar as opiniões assim expressas, o próprio Manuel Pires Almeida limitava-se a condenar o uso dos latinismos sem, no entanto, se atrever a pôr em causa o enriquecimento que os Lusíadas haviam trazido à língua portuguesa.
A fortuna de Camões durante a época barroca (infelizmente por estudar?), devida a causas múltiplas de ordem estética e até política, prolonga-se, apesar das vesgas invectivas críticas de Verney (que de poesia percebia muito pouco), pelo período neoclássico, para atingir, mau grado o azedume do padre José Agostinho Macedo, os tempos românticos, sob os auspícios de Garrett.
O resultado desta presença contínua e continuada não se reduziu, porém, a uma influência literária apenas situada no plano da intertextualidade. Gramáticos, críticos, teorizadores de Poética e de Retórica, aproveitaram a poesia camoniana como linfa cristalina onde todos, em todas as circunstâncias, e por conseguinte, em todos os géneros, na prosa como no verso, podiam beber, com a beleza estilística dos tropos e das figuras, a pureza e correcção do falar e do escrever, quando a observância da norma no uso do vernáculo não era um estigma. Apontarei apenas um exemplo.
É o Antídoto da Língua Portuguesa, de José Macedo, publicado em Amesterdão, segundo reza o frontispício, sob o pseudónimo de António de Mello da Fonseca, sem data, mas com uma dedicatória ao monarca João V firmada em 1 de Janeiro de 1710». In Aníbal Pinto Castro, Camões e a Língua Portuguesa, Quatro Orações Camonianas, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1980.

Cortesia de APHistória/JDACT

sábado, 21 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Um longo chifre de antílope foi introduzido na cubata através da abertura e um som triunfal silenciou o som estridente das mulheres»

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A Gruta
«(…) O chefe mposi sentou-se sozinho. Estava mal de saúde e dava a impressão de estar preocupado. Olhou para o chão de adobe, apoiando a cabeça no punho do seu bastão. Com um movimento rápido, mandou as suas mulheres servirem cerveja. Está ali parada e não está a servir de nada para ninguém! Já estou a servir, ripostou a mais velha das mulheres, erguendo o pote da cerveja com os braços musculosos. Tarde de mais, resmungou ele. O pote de chibuku passou de mão em mão, da direita para a esquerda, sem manifestações de pressa indelicada, como um decantador de Madeira após um jantar de professores em Oxford. O silêncio foi quebrado pelo chefe a chamar pelo nome as quatro mulheres. Eram singularmente diferentes umas das outras em idade, tamanho e beleza. Responderam à vez, ajoelharam-se ao lado umas das outras e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, puseram-se em pé e acenderam velas, enquanto outras mulheres começaram a ulular e a assobiar.
Um longo chifre de antílope foi introduzido na cubata através da abertura e um som triunfal silenciou o som estridente das mulheres. O homem que tocava o chifre era alto e bem constituído. Trazia uma saia feita de fitas de pele preta e, à volta da cabeça, tinha uma fita de pele de leopardo. Era o curandeiro. O seu nome era Sadiki, um dos nomes de clãs lembas,nome inequivocamente semita cuja presença na África Central era uma misteriosa anomalia. Foi ele que dirigiu a cerimónia. Tinha chocalhos magagada feitos de abóboras-meninas secas presos aos tornozelos com correias de fibra de casca de árvore. Bateu com os pés no chão de terra da cubata e soprou no chifre, produzindo uma nota persistente. Quatro mulheres idosas que estavam sentadas juntas no banco de adobe que circundava a cubata começaram a bater em tambores de madeira. O resto dos convidados juntou-se atrás do curandeiro, impulsionados para os pequenos movimentos vibrantes da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, mal se mexendo, perdidos na concentração.
Sadiki estava no epicentro da tempestade de som, dirigindo o seu movimento. Tinha um ar poderoso e magnificente e olhava arrogantemente à sua volta. Mexeu sugestivamente um pé. Depois, uma mão. Seguiu-se o corpo e, colocando-se em frente de um dos tambores, dançou, como David perante a Arca, parando para soprar o chifre de carneiro semelhante ao shofar em que outrora se soprara no Templo de Jerusalém. As tamborileiras pareciam idosas e frágeis de mais para conseguir produzir um som daqueles e apesar disso haviam de tocar tambor durante horas sem parar.
A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza tinha-se apoderado da aldeia. Há muito tempo que não circulavam com tanta liberalidade potes de cerveja. Alguns dos homens, já desabituados de beber, começavam a estar inebriados. A mulher mais velha do chefe parecia já estar possuída pelos espíritos dos antepassados. Olhando para um lado e para o outro, caiu no chão a chorar. Olhando à sua volta com o olhar perdido, levantou o vestido de estilo ocidental acima das nádegas gordas e marmóreas e acima da cabeça. Dançou nua, colocando-se no espaço deixado vago por Sadiki em frente das tamborileiras.
O ritmo acelerou-se outra vez. Sadiki, com o suor a escorrer-lhe pelo peito largo e musculoso, pôs um toucado de penas de águia negra na cabeça da mulher nua. Sevias disse-me que aquilo era para mostrar respeito aos antepassados. Ela continuou a dançar, projectando grandes sombras nas paredes iluminadas por veias. Caiu de joelhos, a chorar convulsivamente, à frente do velho chefe e colocou-lhe ternamente o toucado na cabeça». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Enquanto caminhávamos pela terra ressequida, falou-me dos grandes rebanhos que outrora possuíra, das árvores que se vergavam ao peso dos frutos»

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A Gruta
«(…) No dia seguinte, lamentavam as suas indiscrições nocturnas e murmuravam que os anciãos dos clãs não deviam ter autorizado a minha investigação, que os brancos não tinham nada que se meter nos assuntos deles e que eu devia deixar de tentar penetrar na capa de segredo que envolvia os seus ritos religiosos. Outros tentavam que eu me fosse embora, assustado com as histórias horríveis do que tinha acontecido a anteriores gerações de investigadores que também tinham ido longe de mais por caminhos proibidos. Um deles tinha sido circuncidado à força, depois de ter ousado entrar em Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro tinha andado a vaguear muito perto de uma gruta sagrada no sopé de Dumghe e tinha sido ferido com uma azagaia tradicional e muito espancado. Escapara por pouco com vida. Quando as minhas esperanças de encontrar o indício essencial no quebra-cabeças da identidade deles começaram a morrer, o mesmo aconteceu com as colheitas nos campos à volta da aldeia. Durante meses, não chovera. Havia apenas algum líquido espesso e lamacento no fundo dos furos hertzianos. Todas as manhãs, as mulheres acartavam água em velhos bidões enferrujados de petróleo equilibrados em cima da cabeça. Quando acabasse aquela, não restaria nada para beber. Excepto cerveja, da loja, para as pessoas com dinheiro. E não havia muita.
Naquela manhã, cedo, antes de o Sol nascer, o chefe tinha convocado uma cerimónia da chuva. O mensageiro do chefe chegara exactamente quando a casa começava a mexer. A fogueira de cozinhar estava a ser acendida e estava a aquecer-se água para chá e para lavagens, que me era trazida todas as manhãs à cubata pela filha do meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que era solicitada a sua presença nessa noite. Era um último e desesperado lance de dados. A seca já durava há tanto tempo que as correntes que outrora traziam vida e um ocasional peixe à aldeia tinham desaparecido completamente. Agora, pareciam caminhos de cabras cobertos com uma grossa camada de pó fino. Sem água, em breve a vida na aldeia tornar-se-ia impossível. A tribo teria de se mudar para outro sítio. Mas para onde? A seca abrangia a terra toda. Ao fim da tarde, os anciãos e os notáveis concentraram-se na grande cubata do chefe, no centro do seu kraal, o grupo de cubatas que formava a sua propriedade. Tinham sido convidados para beber chibuku, cerveja de milho fabricada em casa, com a consistência de papa de flocos de aveia, dançar a noite inteira e pedir chuva aos antepassados. Isto era a África mais profunda.
Sevias convidou-me para o acompanhar. Enquanto caminhávamos pela terra ressequida, falou-me dos grandes rebanhos que outrora possuíra, das árvores que se vergavam ao peso dos frutos, do milho que costumava ser tão grande como abóboras. Fomos dos primeiros convidados a chegar. Sentei-me ao lado de Sevias num banco de adobe que existia a toda a volta da cubata e observámos com grande interesse os preparativos para a festa ancestral. Nunca imaginara que me fosse permitido observar uma coisa tão próxima como esta, sem dúvida, estava do âmago do culto deles. Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um bloco de apontamentos. Estava bastante certo de que aquela noite me forneceria material para, pelo menos, um artigo académico dos que produzem forte impressão». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A Arca Perdida da Aliança. Tudor Parfitt. «Os lemba mantinham a surpreendente afirmação de serem de origem israelita, embora a presença de israelitas ou judeus na Africa Central nunca tivesse sido confirmada»

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A Gruta
«Era tempo de seca.Em 1987, a minha casa era uma cubata de erva numa zona tribal seca do centro do Zimbabwe, na Africa Meridional, completamente isolada do resto do mundo. Tinha estado a fazer trabalho de campo numa misteriosa tribo africana chamada lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na altura, era leitor de Hebraico no Departamento de Estudos do Próximo e Médio Oriente da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres e de há algum tempo a esta parte essa tribo é o meu principal tema académico.
Como é que passava o meu tempo na aldeia? No calor abrasador do dia, vagueava pelos montes próximos da aldeia e vasculhava os restos da antiga cultura de construção de pedra que os lemba afirmavam ser obra dos seus antepassados distantes. Com a minha pequena espátula, tinha descoberto alguns ossos, peças de cerâmica local e uma ou duas ferramentas de ferro de idade indeterminada. Não era grande coisa para mandar dizer para casa. Depois, lia, escrevia os meus apontamentos e passava grande parte da noite a ouvir as narrativas dos mais velhos.
Os lemba mantinham a surpreendente afirmação de serem de origem israelita, embora a presença de israelitas ou judeus na Africa Central nunca tivesse sido confirmada. Por outro lado, falava-se desde o princípio dos tempos medievais em reinos judeus perdidos na Africa mais negra. O que ouvi dizer foi que a tribo acreditava que, quando saiu de Israel, se instalou numa cidade chamada Senna, algures do outro lado do mar. Ninguém fazia ideia nenhuma de onde se localizava essa misteriosa Senna e eu também não. A tribo tinha-me pedido que achasse a sua cidade perdida e eu tinha prometido tentar. Tudo o que sabia em 1987 acerca da tribo lemba, com 40 000 membros, era que eram pretos, falavam várias línguas bantus como venda ou xona, viviam em vários locais da África do Sul e do Zimbabwe, fisicamente não se distinguiam dos vizinhos e tinham muitos costumes e tradições idênticos aos das tribos africanas entre as quais viviam.
Mas, por outro lado, também tinham algumas lendas e costumes misteriosos que não pareciam africanos. Circuncidavam os rapazes. Praticavam o abate ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer pombos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em lugares altos como os antigos israelitas; e seguiam muitas das outras leis do Velho Testamento. A observação da lua nova era de importância capital para eles, tal como é para os judeus. Os seus nomes de clã pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semita.
Durante os meses que passei na aldeia a tentar desvendar os seus segredos, nunca encontrei a prova absoluta, a pistola de fumo, que demonstraria que a sua tradição oral, que os ligava ao antigo Israel, era verdadeira. Nunca encontrei uma inscrição numa pedra, um fragmento de uma oração hebraica, um artefacto do antigo Israel. Nem sequer uma moeda ou um caco de cerâmica.
Antes de chegar ao Zimbabwe, tinha passado uns meses com as grandes comunidades lembas da vizinha África do Sul. Aí, os líderes da tribo tinham-me dado uma boa quantidade de informação. Esperava basear-me nisso no Zimbabwe e pedi ao chefe lemba local que facilitasse a minha investigação. O chefe mposi convocou uma reunião dos mais velhos dos clãs lembas e, tentados pela minha promessa de tentar descobrir a sua cidade perdida de Senna, concordaram oficialmente em permitir que investigasse a sua história. Mas depois não me disseram nada que se parecesse com o que eu esperava. Não abriam a boca acerca de nada que tivesse fosse o que fosse a ver com as suas práticas religiosas. Só a minha disponibilidade para me sentar com eles pela noite fora, até o meu uísque soltar a língua dos velhos, é que me permitiu ouvir alguma coisa acerca do seu notável culto». In Tudor Parfitt, A Arca Perdida da Aliança, 2006, Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2008, ISBN 978-972-203-541-5.

Colecção de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «… o filósofo ateniense, Platão, sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz»

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O Algarismo e o Número
«(…) Quando o rei Fernando cumpriu dezoito anos, a rainha Berenguela considerou chegado o momento de lhe procurar esposa. Numa assembleia de conselheiros celebrada no palácio real de Burgos, a rainha anunciou os seus planos. O meu filho, o soberano de Castela, já é um homem. E todo o homem precisa de uma esposa a seu lado; assim o diz a lei de Deus. Se esse homem, além do mais, é um rei, a sua obrigação é procurar descendência para que a sua linhagem se perpetue e proporcionar ao reino um herdeiro. Vós, nobres ricos-homens de Castela, jurastes fidelidade ao meu filho Fernando e lealdade à coroa que encarna. Chegou a altura de que o rei de Castela procure uma esposa com que ter descendência e proporcionar a Castela o seu ansiado sucessor. Os ricos-homens congregados na cúria real de Burgos assistiam calados e atentos à prédica de dona Berenguela; de vez em quando, um ou outro concordava com ligeiros acenos de cabeça com as palavras da rainha-mãe. Já haveis pensado em alguma candidata para futura rainha de Castela, Senhora?, perguntou Maurício, o bispo de Burgos.
Creio ter encontrado a candidata ideal, Sua majestade deve casar com uma princesa de sangue real, mas não pode ter relações de parentesco com ela, pois, e eu sei muito bem do que falo, um casamento desse tipo poderia ser anulado pelo papa. A candidata que elegi é a princesa Beatriz da Suávia, a filha do imperador Filipe. O seu primo e custódio, o actual imperador Frederico, está de acordo com o casamento. Haverá que ir buscar a noiva, supôs o bispo Maurício. Com efeito, senhor bispo. E para tal, pensei no homem adequado. De quem se trata? De vós, bispo Maurício. Vós haveis estudado em França, viajado pela França e pela Alemanha, e conheceis o imperador. Sois um homem equâmine e um ministro de Deus. Além disso, como bispo de Burgos, corresponder-vos-á o privilégio de celebrar o casamento. Não vos parece, Senhores? Os nobres e cidadãos assistentes à cúria concordaram de imediato. Mas, Senhora, eu..., bem, farei o que ordenais. Nesse caso, preparai a vossa viagem. Quando passar este cru Inverno, partireis para a Alemanha. Entretanto, escreveremos ao imperador Frederico para que disponha o necessário e guarde a prima com a diligência que o tutor da futura rainha de Espanha o deve fazer.
Henrique de Ruão ingressou na escola catedralícia de Chartres pouco tempo antes de cumprir os nove anos. Os bispos de Chartres haviam conseguido que a sua escola tivesse tanto prestígio como o que tinham alcançado as universidades que já funcionavam em algumas cidades europeias. Acorriam à escola de Chartres estudantes ávidos de conhecer disciplinas que só ali dispunham dos mestres adequados. Na escola estavam orgulhosos dos seus mestres, sobretudo de Bernardo, um dos fundadores, que tinha criado uma frase que os alunos aprendiam de memória no primeiro dia da sua aprendizagem: nós, os homens modernos, somos apenas anões sobre os ombros de gigantes. Esta frase resumia melhor, que nenhuma outra, o espírito docente da escola. Significava que, para compreender o homem e o mundo, era necessário apoiar-se nos ensinamentos dos grandes sábios, sobretudo dos antigos. E entre eles, o mais reconhecido e estudado era o filósofo grego Platão, e o texto oficial da escola catedralícia era a sua obra Timeo. Nesse livro, o filósofo ateniense sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz. Os alunos de Chartres aprendiam que a última realidade, e portanto a mais perfeita, da criação eram os números matemáticos e, em consequência, as formas geométricas que estes sugeriam; o homem apenas via as sombras da verdadeira realidade. Toda a natureza derivava de combinações numéricas e tudo era, em suma, geometria». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

O Número de Deus. José Corral. «Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Ora, ora, com que então querias escapar-te? Arnal Rendol tinha surpreendido Teresa. Pai, pai, a menina abraçou-se ao seu progenitor. Viste a quantidade de luz? Sim, claro que vejo, minha pequena. Mas para além de muita luz, hoje também há muito frio. Vamos para casa, não quero que adoeças. Arnal pôs a filha no chão e regressaram ambos a casa enquanto a criada continuava a expirar baforadas de alento que desenhavam nuvens de vapor quente na gélida manhã burgalesa. A cor azul do céu é como a que tu pintas nas abóbadas das igrejas. Porque é que o céu é azul, pai?, perguntou Teresa, enquanto Arnal avivava o lume na lareira da cozinha, acrescentando umas achas às brasas do borralho. Porque é a cor mais bonita, minha filha, por isso é também a mais difícil de conseguir. Então, Deus é azul?, perguntou Teresa. Não, Deus é como o homem. Ele quis que fôssemos perfeitos e deu-nos a liberdade de construir, esse livre-arbítrio proporcionou que alguns homens se tenham extraviado do bom caminho.
E as mulheres também são como Deus? O sábio Aristóteles, um filósofo que viveu no país da Grécia há muitos anos, dizia que a mulher é um homem imperfeito... Bem, eu não acredito nisso, mas há muitos homens que dizem que é assim. Na terra de onde a tua mãe e eu viemos, homens e mulheres acreditávamos que éramos bons e iguais, chamávamo-nos os perfeitos, mas outros homens consideraram que estava mal e perseguiram-nos por isso. Eram homens maus? Sim., muito maus. Diziam que a morte era a única coisa que merecíamos, por isso tivemos que sair de lá. Mas Deus não vos defendeu? Sim, fê-lo; protegeu-nos e conseguiu que a tua mãe e eu fugíssemos de lá. Depois nasceste tu... E a minha mãe? Morreu para te dar a vida, por isso deves gostar sempre dela. A mãe era azul? Sim, meu amor, a mãe era azul.
Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente durante vários meses. Ferido no seu orgulho, o aguerrido monarca leonês voltou a sua ira contra Castela e, aproveitando o fim da trégua acordada em finais do ano anterior, atacou o reino do filho. Mas de novo os castelhanos responderam com a mesma contundência que na última ocasião e não coube outro remédio ao rei de Leão do que acordar uma nova paz honrosa.
Durante o Inverno, dona Berenguela tramara toda uma rede de adesões em torno da figura do filho. O jovem mas decidido rei Fernando era um soberano simpático, de carácter enérgico e valente, temente a Deus e de vontade firme. Herdara a coragem e a resolução de ânimo do pai, o rei Afonso de Leão, com quem vivera até pouco antes de ser coroado rei de Castela, e o ânimo e a inteligência da mãe, Berenguela, e, através dela, a energia transbordante de Henrique II de Inglaterra e de Leonor de Aquitânia, os seus afamados bisavós.
Consciente de que Castela não claudicaria ante o exército leonês, de que Fernando se tinha sentado como soberano de Castela e contava com o apoio da grande maioria dos concelhos, universidades e nobres do reino, Afonso de Leão optou por acordar uma paz definitiva com o filho e a antiga esposa. O tratado de paz foi assinado na vila de Toro na colegiada construída segundo o velho estilo ao romano, no dia 26 de Agosto de 1218. Berenguela e Fernando tiveram de entregar ao leonês onze mil maravedis. A paz estava a sair cara, mas a bonança económica do reino permitia aos castelhanos comprar a estabilidade necessária para crescer como nação naqueles tempos tão incertos.
Dona Berenguela não se separara um único instante do seu filho Fernando desde que conseguira convertê-lo em soberano de Castela. A rainha-mãe tinha o firme carácter da sua avó, Leonor de Aquitânia, e tinha-se tornado tão necessária ao filho que participava em todas as cúrias, para as quais o rei convidava os mais notáveis homens do reino para o assessorarem nos assuntos relativos ao governo dos seus Estados. Berenguela ocupava um dos lugares principais na cúria régia e as suas opiniões eram sempre respeitadas e tidas em conta por todos». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
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