sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A Relíquia. Eça de Queirós. «Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio lambisgóia. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) O tristonho pátio de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa da vizinhança das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar uma fumaça do cigarro, às escondidas, numa sala térrea onde aos domingos o mestre de dança, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos decotados, nos ensinava mazurcas. Cada mês a Vicência, de capote e lenço, me vinha buscar depois da missa para ir passar um domingo com a Titi. Isidoro Júnior, antes de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia dele, dava-me uma ensaboada furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois trazia-me até à porta, fazia-me uma carícia, tratava-me de seu querido amiguinho, e mandava pela Vicência os seus respeitos à senhora Patrocínio Neves. Nós morávamos no Campo de Santana. Ao descer o Chiado, eu parava numa loja de estampas, diante do lânguido de uma mulher loura, com peitos nus, recostada numa pele de tigre, e sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Crispim, um pesado fio de pérolas. A claridade daquela nudez fazia-me pensar na inglesa do senhor barão; e esse aroma, que tanto me perturbara no corredor da estalagem, respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua feita de sol, pelas sedas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.
A Titi, em casa, estendia-me a mão a beijar; e toda a manhã eu ficava folheando volumes do Panorama Universal, na saleta dela, onde havia um sofá de riscadinho, um armário rico de pau preto, e litografias coloridas, com ternas passagens da vida puríssima do seu favorito santo, o patriarca São José. A Titi, de lenço roxo carregado para a testa, sentada à janela por dentro dos vidros, com os pés embrulhados numa manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas. Às três horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço, começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o Credo, desfiando os Mandamentos, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e adocicado a rapé e a formiga. Aos domingos vinham jantar connosco os dous eclesiásticos. O de cabelinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da Titi; dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar arbor, arboris; currus, curri; proclamava-me com afecto talentaço. E o outro eclesiástico elogiava o colégio dos Isidoros, formosíssimo estabelecimento de educação, como não havia nem na Bélgica. Esse chamava-se padre Pinheiro. Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por diante de um espelho, deitava a língua de fora, e ali se esquecia a esticá-la, a estudá-la, desconfiado e aterrado.
Ao jantar o padre Casimiro gostava de ver o meu apetite. Vai mais um bocadinho de vitelinha guisada? Rapazes querem-se alegres e bem comidos! E padre Pinheiro, palpando o estômago: felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitela! Ele e a Titi falavam então de doenças. Padre Casimiro, coradinho, com o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio o copo cheio, sorria beatificamente. Quando, na praça, entre as árvores, começavam a luzir os candeeiros de gás, a Vicência punha o seu xaile velho de xadrez e ia levar-me ao colégio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada e vastos colarinhos, que era o José Justino, secretário da confraria de São José, e tabelião da Titi, com cartório a São Paulo. No pátio, tirando já o seu casaco, fazia-me uma festa no queixo, e perguntava à Vicência pela saúde da senhora Patrocínio. Subia; nós fechávamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente, me entristecia aquele casarão com os seus damascos vermelhos, os santos inumeráveis, e o cheirinho a capela.
Pelo caminho a Vicência falava-me da Titi, que a trouxera, havia seis anos, da Misericórdia. Assim eu fui sabendo que ela padecia do fígado; tinha sempre muito dinheiro em ouro numa bolsa de seda verde; e o comendador Godinho, tio dela e da minha mamã?, deixara-lhe duzentos contos em prédios, em papéis, e a quinta do Mosteiro ao pé de Viana, e pratas e louças da Índia... Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre à Titi! À porta do colégio a Vicência dizia: adeus, amorzinho, e dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu pensava na Vicência, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e brancos como leite. E assim foi nascendo no meu coração, pudicamente, uma paixão pela Vicência.
Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio lambisgóia. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Crispim saíra dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela Vicência desapareceu um dia, insensivelmente, como uma flor que se perde na rua. E os anos assim foram passando; pelas vésperas de Natal acendia-se um braseiro no refeitório; eu envergava o meu casacão forrado de baeta e ornado de uma gola de astracã; depois chegavam as andorinhas aos beirais do nosso telhado; e no oratório da Titi, em lugar de camélias, vinham braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés de ouro de Jesus; depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava à Titi um gigo de uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar retórica. Um dia, o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatórios em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, lente de teologia. Fizeram-me roupa branca. A Titi deu-me num papel a oração que eu diariamente devia rezar a São Luís Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa, para que ele conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre Casimiro foi-me levar à cidade graciosa, onde dormita Minerva. Detestei logo o Doutor Roxo. Em sua casa sofri vida dura e claustral; e foi um inefável gosto quando, no meu primeiro ano de Direito, o desagradável eclesiástico morreu miseravelmente de um antraz. Passei então para a divertida hospedagem das Pimentas, e conheci logo, sem moderação, todas as independências, e as fortes delicias da vida». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Sossega, minha pobre jovem, sossega, sussurrou o fidalgo com ternura, ao mesmo tempo que lhe ia alisando o cabelo com as mãos roxas de frio e de desejo»

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«(…) E, claro, a pregar a fé de Cristo ressuscitado! Se não fossem eles, com a vontade de Deus e a bênção de Sua Alteza, bem entendido, o mundo estaria ainda na fase em que as mulheres se viam de armadura e elmo a lutar de espada em punho ao lado dos homens nos campos de batalha. Reconhecia, no entanto, que um homem seria sempre um homem; uma mulher seria sempre uma mulher. Um princípio que não punha em causa, nem jamais podia pôr. O que punha em causa, isso sim, era a ideia de que o mundo e o homem ainda não tinham mudado nada. Ao ouvir os argumentos lapidares do amigo, o rei levantou-se, o nobre imitou-o e ambos se dirigiram para a porta. Estava pois acabada a audiência e autorizado o desejo de Diogo Pacheco. Mas antes de dar saída ao jurisconsulto, cheio de curiosidade, Manuel I ainda perguntou: como é essa Raquel, que não conheço? Já por várias vezes vos falei dela, Alteza. É uma formosa mulher, com apenas vinte anos, que salvei da fogueira por altura do tumulto de há sete anos, em Lisboa. Os pais foram queimados no Rossio e ela só não teve o mesmo destino porque a escondi em casa de um ilustre amigo, antigo professor de Leis, que já morreu. Trazei-a aqui, à corte, quando vierdes de Roma, disse. Gostava de a conhecer. Diogo Pacheco sorriu, abanou a cabeça em sinal de reprovação, deu um abraço ao rei, menos caloroso do que o habitual, e foi-se embora. Vou escrever a oração, meu Senhor, prometeu, à despedida.
Ao sair da Casa da Mina, provavelmente a sede da coroa mais megalómana, devassa e parasitária da Europa, Diogo Pacheco suspirou de alívio e de vaidade, subiu a gola do gibão para se resguardar do frio intenso e, sempre em passo rápido, seguiu pelo caminho imundo e escalavrado à beira-Tejo até ao sopé da colina do castelo. Lá morava a formosa Raquel Aboab, num discreto anexo da família de um marinheiro a quem, havia oito meses, o fidalgo pagava uma avultada renda mensal para manter a rapariga em segurança. Raquel Aboab, mulher de estatura média, pele morena e cabelos negros e lisos, nunca saía do seu miserável aposento, salvo nas circunstâncias em que precisava de ir à latrina do bairro ou deitar o lixo na estrumeira, junto à casa. E mesmo assim executava tudo com o máximo cuidado e a atenção devida, aproveitando a hora antes de escurecer por a considerar menos perigosa para a sua salvaguarda: de dia podia ser vista ou identificada; de noite podia ser morta ou violada. As próprias vitualhas, as roupas da enxerga e a indumentária, também pagas pelo nobre, eram-lhe levadas pela família do marinheiro, que encontrou naquela arriscada forma de auxílio a uma judia um importante recurso económico para o sustento do clã.
Ao longo da história portuguesa, que levava quase cinco séculos de existência, Lisboa vivera sempre muito mais próxima do tormento que do repouso. E até mesmo nos curtos períodos de ausência de guerras e pestes, que tantas vítimas sepultavam, a cidade fora, e continuava a ser, um lugar cúmplice do ódio, do perigo e da morte. E era exactamente sobre esse triste e particular desígnio que Diogo Pacheco ia a reflectir na caminhada quando, a poucos passos do tugúrio de Raquel, encontrou a jovem a chorar, o rosto escondido entre as mãos, sob a copa de uma velha laranjeira. Que fazes aqui a uma hora destas, mulher de Deus?, quis saber o fidalgo, receando que alguém a tivesse visto. Não vês os riscos à tua beira? Visivelmente preocupado, abraçou à pressa a rapariga de modo a escondê-la sob o seu capeirote, limpou-lhe as lágrimas com a ponta dos dedos e, tomando-a pelo corpo, levou-a para casa. O compartimento era minúsculo. Nele, pouco mais espaço havia do que o reservado para o estrado, a esteira, uma mesa, um banco de pinho e a sentina. Não suporto esta loucura, meu senhor, disse Raquel, emocionada, já depois de ambos se acomodarem sobre a enxerga.
Sossega, minha pobre jovem, sossega, sussurrou o fidalgo com ternura, ao mesmo tempo que lhe ia alisando o cabelo com as mãos roxas de frio e de desejo. Não chores, porque trago boas notícias para ti. E, num tom quase imperceptível, acrescentou: para os dois... Boas notícias para mim?, admirou-se. Para ti, sim, Raquel. Após uma curta pausa de silêncio, durante a qual o homem se foi enroscando ao corpo dela numa atitude hesitante, Diogo Pacheco confidenciou-lhe que obtivera a generosa autorização de Sua Alteza para a levar a Roma. Mas, como não podia integrar a embaixada ao papa, ela teria de partir na companhia de alguns homens e de poucas mulheres que, dentro de dias, deixariam Lisboa para ir ajudar na organização da festa que os romanos estavam a preparar aos portugueses na Cidade Santa. Tenho medo, meu senhor, voltou a confessar, inquieta. Tenho medo da fogueira e da viagem, dos padres e dos sumos sacerdotes; tenho medo dos mouros e dos cristãos, e estes medos todos juntos fazem-me sentir um grande medo». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «O que pretendi foi apenas que autorizásseis a sua ida para Roma antes da partida da vossa lustrosa embaixada»

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«(…) Só se for debaixo das vossas vestes..., ironizou Manuel I, perplexo, agastado, antes de acrescentar que o problema não estava na protecção da jovem, mas na complexidade do assunto. Inquieto, o rei quis saber quem era ela, como se chamava, donde provinha. Chama-se Raquel Aboab e é filha de um converso que em tempos foi atirado para a fogueira, respondeu calmamente Diogo Pacheco. Uma judia!, gritou o rei, desesperado. Quereis abrasar uma embaixada e pôr fim ao meu prestígio?! Sem saber para onde se virar ou o que fazer, carregado de ódio, Manuel I dirigiu-se enfim à porta do salão, abriu-a de par em par e, voltando-se para o fidalgo, ordenou: saí e esquecei o que vos pedi. Não quero loucos na comitiva, muito menos loucos a falar ao papa. Imperturbável, Diogo Pacheco desobedeceu à ordem, sentou-se de novo no banco e, num tom suave mas muito firme, propôs: tentemos um entendimento sobre o assunto, meu senhor. Não!, bradou o rei. Peço-vos, Alteza. Peço humildemente a vossa benevolência. Após alguns momentos de hesitação, o monarca suspirou fundo, voltou a fechar as portas e a ocupar a sédia. Dizei pois o que tendes para dizer sem abusar de mim, da minha paciência e da amizade que nos une. E não vos esqueçais de que sou o rei de Portugal e de que vós sois um mero vassalo. Sim, Alteza, sei que sou o vosso mais humilde servo, mas também o melhor dos vossos cúmplices..., contrapôs o outro, pausadamente, com um sorriso enigmático. Depois, outra vez com ar sério e muito calmo, prosseguiu: com certeza expressei-me mal ao anunciar-vos o desejo de levar Raquel Aboab comigo. Não era, nem podia ser, intenção minha integrá-la na comitiva. Conheço as regras da corte, da política e os preceitos da Santa Madre Igreja. O que pretendi foi apenas que autorizásseis a sua ida para Roma antes da partida da vossa lustrosa embaixada.
E lá?, inquiriu o rei, um pouco mais sereno. Lá, aguardará por mim. Um silêncio penumbroso abateu-se sobre a sala. Manuel I apoiou a cabeça no espaldar da sédia, fixou, extático, um ponto no tecto, até Diogo Pacheco, já mal contendo a paciência, decidir desabrigá-lo daquele estado de alheamento a que se remetera por demorados instantes. Meu senhor, interrogou de súbito, que decidis? Autorizais ou não a ida de Raquel para Roma? O monarca gemeu algumas palavras imperceptíveis, desapoiou a cabeça e, olhando de frente para o fidalgo, quis saber o que pretendia ele fazer com a mulher na Cidade Santa. O mesmo que fazemos com outras aqui, na sede da coroa... Ruborizado, mas sem perder a calma, Manuel I atalhou logo: pois..., mas essa é judia. É verdade. E andais a servir-vos de uma judia? E Abraão Zacuto, vosso distinto médico, não é judeu? Mas é médico. Que se serve de judias..., troçou o nobre, sarcástico, no intuito de amenizar a conversa. Sim, mas serve-se com saber e benevolência, defendeu atabalhoadamente o rei.
Além de médico, Abraão Zacuto era ainda um ilustre matemático e astrónomo. Chegou mesmo a escrever o Almanach Perpetuum, tese que lhe deu extraordinária notabilidade em Salamanca e Cartagena, onde, tempos antes, os cristãos raramente dispensavam os seus ensinamentos em astronomia. E já em Lisboa, para onde fora viver depois de expulso de Castela pelos reis católicos, Manuel I não só introduziu na Universidade uma cadeira de Astronomia para ele reger, como chegou a consultá-lo antes de enviar a expedição de Vasco da Gama à Índia. Eu também sei como se tratam as jovens com saber e benevolência..., contrapôs Diogo Pacheco, considerando depois, naquele seu jeito calmo mas de irritante temperança, que Sua Alteza, tal como ele próprio ou Zacuto, sabia de igual modo acolher as donzelas com extremo fascínio..., e muita afeição. Sois inteligente, bom amigo, sois muito inteligente e eu sei aonde quereis chegar, prosseguiu Manuel I, meneando a cabeça, tentando assim pôr termo a um diálogo incómodo para ambos. Mas agora veio-me à ideia uma solução que poderia resolver o problema: porque não se disfarça essa Raquel de homem, como no passado as mulheres guerreiras? Diogo Pacheco deu de novo uma sonora gargalhada, ergueu o sobrolho e disse, com o conhecimento e a elegância habituais, que o mundo naqueles dias era já outro. E isso se devia aos heróicos marinheiros portugueses que, em amorosa luta contra a morte, andavam pelos mares ignotos à descoberta de outras terras, de grandes riquezas e novas culturas». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «… desejais levar uma mulher na embaixada? E, sem dar tempo a que Diogo Pacheco respondesse, prosseguiu: estais louco, Santo Deus!?»

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«(…) Manuel I queria gente de invulgar categoria e em condições de transmitir em Roma a noção de que o rei português não era apenas uma dócil ovelha da Igreja ou um simples servo dela sem proveito; era sim um homem empenhado em levar a terras remotas a fé e a lei de Cristo. Além disso, pretendia que os seus embaixadores mostrassem ao mundo cristão e herético, numa atitude de assombrosa altivez, que o reino de Portugal era tão rico ou mais ainda do que a corte pontifícia, e ele, monarca por escolha e vontade de Deus, tinha um poder, se não igual, pelo menos próximo do chefe da Cristandade. Tamanha vaidade, a que associava uma enorme admiração e um extraordinário encanto por si mesmo, Manuel I nunca a escondia. As mensagens que lhe chegavam de reis estrangeiros, enaltecendo o seu valor e o heroísmo dos marinheiros portugueses, reenviava-as imediatamente a Leão X na secreta esperança de que este se deixasse impressionar por elas. Isso aconteceu, por exemplo, quando a rainha Helena, regente da Abissínia, em nome de seu neto David, de doze anos, escreveu uma carta a louvá-lo e a oferecer-lhe suprimentos para o abastecimento dos navios da coroa de Lisboa que fossem combater e exterminar os mouros na costa de África.
A fama do rei e dos seus marinheiros começava de tal forma a espalhar-se pela Europa que até o imperador da Alemanha, Maximiliano I, numa carta que escrevera à filha Marguerite, a viver na corte de Flandres, e cuja cópia fora igualmente remetida a Sua Santidade, garantia, convencido de uma verdade jamais certificada, que os portugueses tinham conquistado Meca e destruído a cidade. Face, pois, ao estrondo causado por tantas e tão boas notícias sobre o sucesso dos seus navegadores, Manuel I achava que Portugal devia aproveitar a onda de entusiasmo que varria o mundo católico para exigir do ocupante da cátedra pontifícia a aprovação de três importantes medidas: a criação de uma liga formada por todos os reis e príncipes da cristandade, destinada a combater os turcos que, animados pelas vitórias de Solimão II na Palestina e na Hungria, ameaçavam invadir os reinos meridionais; a continuação do sagrado concílio de Latrão, tendo em vista a reforma da Igreja não tanto no dogma invariável quanto nos seus aspectos disciplinares; e, finalmente, a institucionalização temporária do pagamento de um imposto, pelo clero secular, para recompensar os homens que iam servir em África e na Ásia.
Objectivamente, eram estas as propostas do rei português que, associadas a outras questões de natureza subjectiva, o jurisconsulto teria de defender, em Roma, na sua oração de obediência. Tenterei pois escrever uma rogatória ao vosso gosto, meu senhor. Com um sorriso de contentamento, Manuel I levantou-se da sédia, deu um novo abraço a Diogo Pacheco e, sem nunca esconder a emoção, disse que outra coisa não esperava dele. Há algo, porém, que gostaria de vos colocar, Alteza, ponderou o nobre, quando os dois homens se libertaram do enleio. O que é? Gostaria que autorizásseis a levar comigo uma jovem, a bela jovem de que já vos falei em tempos... Apanhado de surpresa, o monarca franziu a testa, abriu os olhos de espanto e questionou: desejais levar uma mulher na embaixada? E, sem dar tempo a que Diogo Pacheco respondesse, prosseguiu: estais louco, Santo Deus!? Quereis uma mulher numa embaixada política, constituída apenas por homens ilustres e distintos fidalgos? Saberei protegê-la, Alteza». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

A Relíquia. Eça de Queirós. « Apenas completei nove anos, a Titi mandou fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Enfim, num domingo de manhã, estando a chuviscar, chegamos a um casarão, num largo cheio de lama. O Senhor Matias disse-me que era Lisboa; e, abafando-me no meu xale-manta, sentou-me num banco, ao fundo de uma sala húmida, onde havia bagagens e grandes balanças de ferro. Um sino lento tocava à missa; diante da porta passou uma companhia de soldados, com as armas sob as capas de oleado. Um homem carregou os nossos baús, entramos numa sege, eu adormeci sobre o ombro do Matias. Quando ele me pôs no chão, estávamos num pátio triste, lajeado de pedrinha miúda, com assentos pintados de preto; e na escada uma moça gorda cochichava com um homem de opa escarlate, que trazia ao colo o mealheiro das almas. Era a Vicência, a criada da tia Patrocínio. O Matias subiu os degraus conversando com ela, e levando-me ternamente pela mão. Numa sala forrada de papel escuro, encontramos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dous óculos defumados. Por trás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para mim, com o peito trespassado de espadas. Esta é a Titi, disse-me o Matias. É necessário gostar muito da Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi! Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, de uma frialdade de pedra; e logo a Titi recuou, enojada. Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo! Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ela, murmurei: sim, Titi.
Então o Matias gabou o meu génio, o meu propósito na liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa à mesa das estalagens. Está bem, rosnou a Titi secamente. Era o que faltava, portar-se mal, sabendo o que eu faço por ele... Vá, Vicência, leve-o lá para dentro..., lave-lhe essa ramela; veja se ele sabe fazer o sinal da cruz... O Matias deu-me dous beijos repenicados. A Vicência levou-me para a cozinha. À noite vestiram-me o meu fato de veludilho; e a Vicência, séria, de avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as colunas de um altar. A Titi estava sentada no meio do canapé, vestida de seda preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anéis. Ao lado, em cadeiras também douradas, conversavam dous eclesiásticos. Um, risonho e nédio, de cabelinho encaracolado e já branco, abriu os braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só boas noites. E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um homenzinho, de cara rapada e colarinhos enormes, cumprimentou, atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.
Cada um deles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava Tedrico. O outro, amorável, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as sílabas e dissesse Te-o-do-ri-co. Depois acharam-me parecido com a mamã, nos olhos. A Titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes colarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quis saber se eu trazia saudades de Viana. Eu murmurei, atordoado: sim, Titi. Então o padre mais idoso e nédio chegou-me para os joelhos, recomendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente à Titi... O Teodorico não tem ninguém senão a Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi... Eu repeti, encolhido: sim, Titi. A Titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da boca. Depois disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicência, sempre a seguir pelo corredor... E quando passar pelo oratório, onde está a luz e a cortina verde, ajoelhe, faça o seu sinalzinho da cruz...
Não fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia. Cheguei-me devagar até junto da almofada de veludo verde, pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da Titi. Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céu os anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez de pedras; o seu brilho formava a luz do dia; e as estrelas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo através dos véus negros, em que os embrulhava à noite, para dormirem, o carinho beato dos homens. Depois do chá, a Vicência foi-me deitar numa alcovinha pegada ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, e ergueu-me a face para o céu. E ditou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saúde da Titi, pelo repouso da mamã, e por alma de um comendador que fora muito bom, muito santo e muito rico o que se chamava Godinho.
Apenas completei nove anos, a Titi mandou fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros, então em Santa Isabel. Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz, Crispim, mais crescido que eu, filho da firma Teles, Crispim & Cia. Donos da fábrica de fiação à Pampulha. O Crispim ajudava à missa aos domingos; e, de joelhos, com os seus cabelos compridos e louros, lembrava a suavidade de um anjo. Às vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; à noite, na sala de estudo, à mesa onde folheávamos os sonolentos dicionários, passava-me bilhetinhos a lápis chamando-me seu idolatrado e prometendo-me caixinhas de penas de aço... À quinta-feira era o desagradável dia de lavarmos os pés. E três vezes por semana o sebento padre Soares vinha, de palito na boca, interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor. Ora, depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caifás... Olá, o da pontinha do banco, quem era Caifás?... Emende! Emende adiante!... Também não! Irra, cabeçudos! Era um judeu e dos piores... Ora diz que, lá num sítio muito feio da Judeia, há uma árvore toda de espinhos, que é mesmo de arrepiar... A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e de estalo, fechávamos a cartilha». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Escrava de Córdova. Alberto S Santos. «Convencido de tais profecias, o rei Afonso III enviou, então, um emissário a Córdova propondo a paz ao califa Muhammad I»

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(…) Múnio era conhecido pelo cognome o Gasco,  por ser oriundo da Gasconha e ter chegado, anos antes, às terras de Anégia, nas margens do Douro, que apresurou para si. O próprio rei se apressou a outorgar-lhe qualidade de governador, interessado no estabelecimento da sua autoridade na fronteira com os mouros. No final do conciliábulo, solicitou ao abade Rosendo uma audiência a sós. O scriptorium do mosteiro acolheu-os, dando-lhes a privacidade de que necessitavam. Ali se encontravam vários livros, o orgulho daquele ancião. Uns, trazidos pelos moçárabes andalusinos das oficinas livreiras de Córdova; outros, pelos peregrinos de santiago; outros ainda recolhidos com muito zelo pelo abade, durante as inúmeras viagens feitas ao longo da sua vida, como era o caso das obras de padres antigos oriundas de França e de Itália. Viam-se também livros de Isidoro, Leandro, Ildefonso, Taio e Beda, o Venerável.
O governador de Anégia, um dos poucos nobres que, na idade juvenil, aprendera a ler num mosteiro, fixou a sua atenção numa das secções da biblioteca daquele que fora, em tempos, bispo das dioceses de Dume-Mundoñedo e de Santiago. Encontravam-se ali separados livros que o conde não contava ver, alguns deles de que nem sequer suspeitava existirem. Ricamente encadernados, exibiam-se uma Crónica Moçárabe, uma Crónica Profética, uma Crónica de Afonso III, um livro de João Toledo, uma cópia do Libellus de Antichristo, de Adson de Montierender e uma edição de Comentários ao Apocalipse, do Beato de Liébana, entre outros livros que Múnio não conseguiu identificar. Abade... Que estranhas obras se encontram aqui... Interessais-vos, por acaso, por algumas das ideias que já ouvi..., de que o mundo vai acabar...?! Um sorriso aberto pairou, durante algum tempo, nos lábios daquele ancião já de costas curvadas pelo peso dos anos, enquanto as suas mãos trémulas acariciavam as lombadas dos seus amados livros.
Vejo que és muito perspicaz, meu filho. De facto, tenho estado a recolher informações sobre essas questões. Estou preocupado com algumas correntes que apregoam que o fim dos tempos está próximo. Por isso, ao longo dos anos, tenho coleccionado os livros que têm tratado esse assunto. E que dizem eles? Bom..., muitas coisas... Já que estás interessado no tema, senta-te nesse escabelo e escuta, que eu resumo-te o essencial, respondeu-lhe o venerando abade, dirigindo-se em passo cansado para o topo de uma mesa quadrada feita em madeira de carvalho, onde se sentou em frente ao anegiense. Não era aquela a razão por que Múnio pretendia falar a Rosendo, mas ficou muito entusiasmado por poder receber os ensinamentos daquele sábio vivo.
O Bispo Julião de Toledo dedicou-se à elaboração de laboriosos cálculos sobre o final dos tempos. Com a chegada dos muçulmanos e de algumas pestes ao nosso território, os cristãos moçárabes começaram, por sua vez, a preocupar-se com o fim da dominação dos infiéis. Por isso, na sua Crónica Moçárabe previa-se que no ano 6000 da criação do Mundo, o fim da sexta e última idade do Mundo, que corresponde ao ano 800 depois de Cristo, os muçulmanos seriam expulsos destas terras. Também o Beato de Liébana, que viveu na segunda metade do século VIII, acreditava que a Parusia ocorreria nessa ocasião, como se vê nos seus Comentários ao Apocalipse. Este livro está ilustrado com várias iluminuras e desenhos retratando a sua visão das convulsões e catástrofes que antecederiam o regresso de Cristo, no final dos tempos. Como tal não aconteceu, o tema foi retomado no ano 883, através da Crónica Profética e da Crónica de Afonso III, também elas escritas por moçárabes. Estes assinalaram o ano seguinte como aquele em que terminaria o castigo dos Godos pelos seus pecados e a consequente expulsão dos árabes. Convencido de tais profecias, o rei Afonso III enviou, então, um emissário a Córdova propondo a paz ao califa Muhammad I e solicitando autorização para trazer as relíquias de Santo Eulógio e de outros mártires moçárabes para Oviedo». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Escrava de Córdova. Alberto S Santos. «… exausta e aliviada, enquanto se recompunha. Não..., não pode ser!... Parece... Parece ele! Terá sido ele quem me salvou?»

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(…) O soldado dominava bem aquela técnica. Já usada noutras situações similares. Não demorou muito tempo até lograr despir a clériga e colar-se às suas costas. A jovem sentiu o mundo ruir: tudo aquilo em que acreditara desabava ingloriamente. Não conseguiria sobreviver a tal ultraje: ou morreria durante o acto ou matar-se-ia de seguida. Talvez Jesus não tivesse sido correcto para com ela ao dar-lhe tão triste sina, depois de toda a dedicação que lhe votara. Ainda se lembrou das suas últimas palavras na cruz: pai, porque me abandonaste? E julgou compreendê-las. A túmida virilidade do soldado fez-se sentir ainda dentro das suas vestimentas guerreiras. É, o fim!, pensou, benzendo-se mentalmente, enquanto era coberta pelos primeiros lampejos do sol minguante que conferiam tonalidades ocres àquele final de dia. Subitamente, e nada o fazendo prever, todo o corpo do árabe tombou, desamparado, antes de ter conseguido concretizar os seus intentos predadores e sem que Ouroana tivesse plena consciência do que estava a acontecer. O espírito parecia-lhe estar já fora do corpo.
Os seus olhos fitavam as águas límpidas do Sousa que, indiferentes, corriam dolentemente para o Douro. Porém, a sua quietude começava a ser perturbada por uma insólita cena: os peixes fugiam nervosamente de uma mancha vermelha que penetrava no rio, cada vez com mais intensidade. Ouroana ainda julgou estar a sua pureza a ser absorvida pelas cristalinas águas. Mas não! A virgindade desflorada nunca seria suficiente para corar o ribeiro de tanto carmesim. Só então reparou que o guarda, por cima de si, se encontrava completamente inanimado: a mão já não tapava a sua boca e era precisamente das costas daquele corpo que jorrava o líquido que tingia o rio e deixava os peixes em alvoroço. Ele jazia morto e ela permanecia imaculada! Com dificuldade, conseguiu livrar-se do cadáver do mouro que, de cabeça para baixo, ocupava o lugar onde antes se encontrara o dela. Nas suas costas, bem cravada, luzia a adaga que tão eficazmente o atingira. Meu Deus, enviaste o meu anjo protector!, murmurou, exausta e aliviada, enquanto se recompunha. Não..., não pode ser!... Parece... Parece ele! Terá sido ele quem me salvou?

Lua Cheia. Mosteiro de São Salvador de Celanova, Ourense, Galiza. Ano de 976
Múnio Viegas, o governador da Civitas (espécie de distritos militares criados pelo rei Afonso III das Astúrias, 866-910, dependentes de um centro fortificado, sede do poder condal, onde se coordenavam as estratégias de defesa, se cobravam os impostos e se praticava a justiça em nome do rei) Anégia, acompanhado de outros influentes nobres galegos e portucalenses tinha-se dirigido ao Mosteiro de Celanova para solicitar os bons ofícios do seu abade, Rosendo Guterres, na oposição a Ordonho III, o Rei de Leão. Pretendiam substituí-lo por Bermudo, mais favorável aos seus interesses. A ilustre delegação de magnates vestidos de feiraches, os roupões típicos das terras do Minho, exibindo os compridos cabelos divididos ao meio por uma risca e cortados de forma a deixar uma madeixa cair sobre a testa, era chefiada por Gonçalo Mendes, Conde-Maior de Portucale. Integravam-na ainda Gonçalo Nunes, que, à boca pequena, se dizia ter sido o responsável pela morte do rei Sancho I, e Rodrigo Vasques». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 19 de novembro de 2017

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Zubaida apanhou febre e o seu organismo estava fraco demais para a combater. Agora, esperava-se pelo seu último suspiro»

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«(…) Como já era de esperar, o inglês Hervey de Glanville e o seu prelado Gilbert de Hastings puseram-se ao lado dos portugueses. E no fim todos concordaram em navegar até Lusbuna, pois qual era o mal em ouvir o que Afonso Henriques tinha para lhes oferecer? Levantavam-se as amarras. Todas as naus transportavam agora mais passageiros, incluindo o arcebispo e os três bispos. Konrad apercebia-se preocupado de quantos portugueses, a maior parte deles camponeses e pescadores, que não entendiam nada de combate nem sequer possuíam armas, tencionavam participar no cerco de Lusbuna, como se este fosse assunto já decidido. Tolerava-se a presença de mulheres, como era aliás costume em campanhas militares, pois elas contribuíam para manter a boa-disposição entre os guerreiros. Só Johann teimava em não aparecer! Onde diabo se meteu esse danado?, perguntava-se Konrad desesperado. Confesso que também estou preocupado, replicou Hadwig. O nosso barco está quase a partir. Konrad começou a reunir as suas coisas e as do irmão e o amigo perguntou-lhe espantado: o que te deu agora? Não posso deixar o miúdo aqui sozinho. Hadwig escancarou os olhos azuis: e arriscas-te a ficares aqui também? Só o tempo que levar a encontrá-lo. Está de certeza no bordel, a divertir-se com a rameirita e nem se dá conta do passar do tempo. Assim que o arrancar de lá, dar-lhe-ei uma boa sova. E depois fazemo-nos ao caminho, em direcção a essa..., Lusbuna. Vós os dois sozinhos?
Não nos perderemos, afinal só precisamos de seguir ao longo da costa. Duzentas milhas são, para dois homens, cerca de uma semana de marcha, no máximo dez dias. Como vós ireis ficar algum tempo por lá para negociardes com o rei, nós lá vos apanharemos. Deus queira que sim... Nisto, Gunther bradou: lá vem ele! Konrad virou a cabeça. E não queria acreditar no que os seus olhos viam: Johann vinha numa correria e pela mão trazia..., a rameirita, que transportava uma pequena trouxa! Os dois saltaram a bordo, mesmo antes do barco se descolar do cais. Que significa isto?, berrou Konrad, mal conseguindo controlar a sua fúria. Ela vem comigo, respondeu Johann ofegante. Isso vejo eu. Então porque perguntas? Konrad forçou-se a manter a calma e replicou: não hão-de faltar rameiras rapaz! Para que é que hás-de levar uma? A partir de hoje, ela já não o é. Como? Vou casar com ela! Konrad precisou de algum tempo para recuperar do seu estarrecer, mas depois vociferou: enlouqueceste frangalhote? Como se eu fosse permitir uma coisa dessas! E quem precisa da tua autorização?, berrou Johann. Estou farto de fazer o que tu me mandas. Não sabes o que dizes. Era o que mais me faltava, ir com uma rameira às... Nunca mais a chames assim! A pele clara de Johann enrubesceu até à raiz dos cabelos, as suas mãos cerraram-se em punhos. Ela tem um nome: Ausenda. E é minha noiva! Seu danado!, rugiu Konrad, lançando-se ao irmão. Já te vou ensinar a... Tem calma, homem! Hadwig e Gunther agarraram-no pelos braços e separaram-no do mais novo. Johann pegou na mão de Ausenda e levou-a para o canto onde tinha a manta. Não dá para acreditar!, fungou Konrad. Para que te hás-de exaltar dessa maneira?, retorquiu Gunther. Verás como o miúdo se enche dela num instante.
O mês de Junho aproximava-se do fim e Aischa ainda não casara com Amir. A cerimónia fora adiada, pois a mãe dela jazia moribunda. Zubaida comera cada vez menos, até que chegou a uma altura em que só ingeria líquidos. Os médicos, estupefactos, admitiam que ela sofresse de uma doença misteriosa. Depois de uma semana inteira a prescindir de alimentos, Zubaida apanhou febre e o seu organismo estava fraco demais para a combater. Agora, esperava-se pelo seu último suspiro. Este parecia próximo quando um ataque febril se apoderou do corpo mirrado, mas Zubaida lá se acalmou e adormeceu por algumas horas. Ao acordar, anunciou que o seu último desejo era uma conversa a sós com a filha. Aischa, só por tua causa me custa deixar este mundo. De resto, anseio pela redenção. E sei que irei direita a Deus. Não fales assim! Fazes-me recear pela tua alma. Não receies! Deus Nosso Senhor prometeu-me que me levaria para junto Dele. Apareceu-me em sonho e revelou-me muita coisa. Que estás para aí a dizer? Eu disse-Lhe que não aguentava mais esta minha vida, mas que por outro lado pretendia evitar manchar-me com o pecado do suicídio. Ele aconselhou-me então a recusar os alimentos e a viver em ascese, como muitos dos nossos santos.
Oh será possível? Pedi-Lhe que tomasse conta de ti, mesmo depois dos cristãos terem conquistado Lusbuna. E sabes o que Ele me disse? Assegurou-me que sobreviverias ao cerco e que encontrarias um cavaleiro cristão do teu agrado! Não quero ouvir mais nada! Casarei com Amir e manter-me-ei fiel à fé verdadeira! Viverás o teu futuro ao lado de um cristão, minha filha. El-rei Afonso Henriques manter-vos-á sob a sua protecção. El-rei?! Esse homem horrível, Alá o maldiga! Endoideceste, mãe! Desculpa que o diga nestas circunstâncias, mas acho que a tua doença te roubou o discernimento. Eu falei com Deus, insistiu Zubaida. Não há outro Deus a não ser Alá e Maomé é o seu profeta! A moribunda fechou os olhos. Depois de um breve silêncio, tornou a abri-los e disse: Estou orgulhosa de ti, minha filha. Guardaste o nosso segredo. Mas irei revelá-lo». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão»

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«(…) Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o, mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a ideia dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza. Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus óculos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almoço, abruptamente, sem transições emolientes: peço-lhe licença para casar, o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente: não. Perdão, tio Francisco! Não. Mas ouça, tio Francisco... Não. Macário sentiu uma grande cólera. Nesse caso, faço-o sem licença. Despedido de casa. Sairei. Não haja dúvida. Hoje. Hoje. E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se : olá!, disse ela a Macário, que estava exasperado, apopléctico, raspando nos vidros da janela. Macário voltou-se com uma esperança. Dê-me daí a caixa do rapé, disse o tio Francisco. Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado. Tio Francisco..., começou Macário. Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá. As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa. De muito boa vontade, meu amigo, disse-me ele. Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas... E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos. E todos sentiam, mas...» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo!»

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«(…) Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritava na confusão, e o capelão da Casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária ficara atarracada de pavor: sentia os urros dos bois, os gritos agudos das mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão…, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bradando cheio de raiva! É o pai do conde. Ela então desmaia nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda real está à porta com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores com pampilhos: el-rei já estava dentro, escondido no fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiadas à alta bengala, forte, espadaúdo, com o aspecto carregado o marquês de Pombal falando devagar e intimativamente, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos postilhões retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: viva el-rei, nosso senhor!, e o sino da porta da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à Casa dos Arcos.
Quando dona Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que ele tinha ficado ao lado da menina Vilaça, que se chamava Luísa, que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se também de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos. Ora como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça, e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas de um ás, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sobre o pano verde a sua peça de ouro, com um bilro ou um pião. Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando e fazia à vista como uma bola de névoa dourada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da peça de ouro nova. Mas, de repente, a peça, correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo cortesmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.
É célebre, disse o amigo de chapéu de palha. Eu não ouvi tinir no chão. Nem eu, nem eu, disseram. O beneficiado, curvado como um F, buscava tenazmente, e Hilária mais nova rosnava o responso de Santo António. Pois a casa não tem buracos, dizia a mãe Vilaça. No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas: pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então menina Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada. Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção, e atribui-a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada: ora o sumiço da peça, hem? Que brincadeira! Acha, senhor beneficiado?, disse Macário parando, absorto de impudência.
Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo! Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou: amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. Que bolada, hem! E Macário tinha vontade de lhe bater. Foi neste ponto que Macário me disse, com a voz singularmente sentida: enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela. Mas a peça? Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

sábado, 18 de novembro de 2017

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Ondas, dizia, antes que Amor me mate, tornai-me a minha nympha, que tão cedo me fizestes á morte estar sujeita!»

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«(…) Comecemos por estas redondilhas, escriptas naturalmente antes do mando injusto, que o forçou a embarcar.

Mote
Se me desta terra fôr,
Eu vos levarei, amor.

Voltas

Se me fôr e vos deixar
(Ponho por caso que possa),
Esta alma minha, que é vossa,
Comvosco me ha de ficar.
Assi que, só por levar
A minha alma, se me fôr,
Vos levarei, meu amor.

Que mal pode maltratar-me,
Que comvosco seja mal?
Ou que bem póde ser tal,
Que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
O bem me será maior,
Se vos levar, meu amor.

Vejamos agora como, alludindo a uma predicção, o poeta nos dá noticia das duas desgraças que lhe aconteceram em um só dia, a perda dos haveres que tinha agenciado no Oriente e com que contava para a velhice, e a morte da sua alegre e doce companheira:

Cantando estava um dia, bem seguro,
Quando passava Sylvio e me dizia
(Sylvio, pastor antigo, que sabia
Por o canto das aves o futuro):

Liso, quando quiser o fado escuro,
A opprimir-te virão em um só dia
Dous lobos; logo a voz e melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi, porque um me degolou
Quanto gado vaccum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava;

E, por mais dano, o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpetua saudade da alma minha.
(Soneto 172).

E, vagueando pelos logares próximos da terrível catastrophe, de que a custo salvara a vida e o Canto, em que celebrava os feitos dos portugueses, o poeta exprime a sua dor pela morte da cordeira gentil, em versos de incomparável belleza.

O ceu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem por a area...
Os peixes, que no mar o somno enfreia...
O nocturno silencio repousado...

O pescador Aonio, que, deitado
Onde co vento a agua se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não póde ser mais que nomeado:

Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha nympha, que tão cedo
Me fizestes á morte estar sujeita!

Ninguém responde. O mar de longe bate.
Move-se brandamente o arvoredo.
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita…
(Soneto 173).

Ah minha Dynamene! Assi deixaste
Quem nunca deixar pôde de querer-te?
Que já, nympha gentil, não possa ver-te!
Que tão veloz a vida desprezaste!

Como por tanto tempo te apartaste
De quem tão longe andava de perder-te?
Puderam essas aguas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem somente fallar-te a dura morte
Me deixou, que, apressada, o negro manto
Lançar sobre os teus olhos consentiste.

Oh mar! ó ceu! ó minha escura sorte!
Qual vida perderei que valha tanto,
Se inda tenho por pouco o viver triste?
(Soneto 170).

In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o magico veneno, que pôde transformar meu pensamento»

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(…) No soneto Quando cuido, contemporâneo da canção 6.ª insiste o poeta no receio que tem de se esquecer da infanta:

Quando cuido no tempo que contente
Vi as pérolas, neve, rosa e ouro,
Como quem vê por sonhos um tesouro,
Parece tudo tenho aqui presente.

Mas, tanto que se passa este accidente,
E vejo o quão distante de vós mouro,
Temo quanto imagino por agouro
Porque de imaginar também me ausente.

Já foram dias em que por ventura
Vos vi, Senhora, se, assi dizendo, posso
Co coração seguro estar sem medo.
[……. se isto dizer posso
Co coração seguro, sem ter medo]

Agora, em tanto mal, não me assegura
A própria fantasia, e nojo vosso.
Eu não posso entender este segredo!

Qual a causa porque o poeta receava ausentar-se de imaginar na infanta? Seria effectivamente por ver quão distante della morria?
Mas não se lê na elegia 3.ª:

Uma cousa, Senhor, por certa asselle:
Que nunca amor se afina, nem se apura.
Em quanto está presente a causa delle?

Seria porque estava convencido de que a infanta não era estranha ao seu desterro para as Molucas e castigava com tão grave penitencia tão pequeno erro, como era o ter-lhe amor? Mas não diz elle na canção 6.ª :

... Se tão longo c misero desterro
Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nelle meu tormento?

Nota: Veja-se também o soneto 68, já citado:
Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde, sob pena de enojar-vos.
Agora a própria phantasia não assegura o poeta de que não venha a aborrecer a infanta. É isso que elle leme.

É que estas causas, que, por si sós, lhe não arrancariam do coração o seu alto pensamento, começaram a avolumar-se, pela acção do magico veneno, que uma Circe, de celeste formosura, lhe ia ministrando. E, sentindo os effeitos desse veneno, Camões assustava-se com a ideia de olvidar a bem-amada. Como era possível que se lhe apagasse da alma aquelle gesto tão soberano, que lhe havia mudado o ser, de humano em divino? Como era possível que abandonasse aquelle seu pensamento, pelo qual teria morrido contente?

Eu não posso entender este segredo!

exclama o angustiado poeta. Mas o veneno foi produzindo os seus effeitos e operou a receada transformação. Eis como o poeta nos apresenta a estranha creatura, que se lhe apoderou do coração e dos sentidos, a ponto de obliterar a imagem da infanta:

Um mover d’olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quasi forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indicio da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar, uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o magico veneno,
Que pôde transformar meu pensamento.
(Soneto 35).

De quem se trata? Naturalmente de alguma estonteadora formosura oriental, que, com a sua apparente impassibilidade, tão profunda revolução produziu na alma do apaixonado adorador da infanta. Do que me não resta duvida é de que o poeta trazia comsigo a seductora Circe, quando naufragou na costa da Cochinchina, e ahi a viu perecer afogada, sem lhe poder valer. E foi então que elle, ao exprimir a sua dor, attingiu o supremo grau na poesia lyrica». In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT