sábado, 16 de dezembro de 2017

Maria da Fonte. Maria João F. Gouveia. «Foi na Póvoa de Lanhoso, a nordeste de Braga, que esta espoletou. Não por mera casualidade…»

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A rainha do povo
«Maria Angelina Silva foi baptizada a 13 de Março de 1824, no lugar de Valbom, na freguesia do Salvador de Fontearcada, concelho da Póvoa de Lanhoso. Era filha legítima de Miguel Joaquim Silva e de Maria Josefa, neta paterna de Manuel Silva e Maria Antunes e materna de Francisco Ferreira e de Maria Araújo Taíde. Teve por padrinhos João António Castro, capitão de milícias de Pernambuco e assistente natural da dita freguesia de Taíde e Angélica Melo, mulher de Francisco António Rebelo do lugar de Paredes. A ela se viria a atribuir o feito de ter comandado uma multidão de mulheres contra as autoridades locais, civis e militares, que faziam cumprir as ordens de Costa Cabral, ministro da rainha dona Maria II. As reformas administrativas instituídas no reino impunham novos impostos e normas que muito transtornavam as pessoas, desgastadas e empobrecidas com as guerras liberais, terminadas cerca de uma década antes. As últimas determinações régias eram vistas com maus olhos pelo povo. Se a cobrança de uma taxa aos homens que percorriam as estradas o afligia, mais o revoltavam as novas leis da saúde referentes aos enterros. A nova legislação exigia o pagamento de um tributo de covato, a examinação dos corpos por um delegado médico, e, desespero geral, a proibição de enterrar os mortos dentro das igrejas.
Todo este descontentamento havia de contribuir para o desencadear daquela a que se chamou A Revolução da Maria da Fonte. Foi na Póvoa de Lanhoso, a nordeste de Braga, que esta espoletou. Não por mera casualidade, ou por força do destino, mas como resposta à severidade e ao rigor com que o seu administrador, José Joaquim Ferreira Melo Andrade, (nomeado pelo governo de Lisboa, que assim estabelecia um novo cargo municipal, pago pelas gentes), fazia cumprir as disposições régias. O verdadeiro primeiro grito de rebelião soou a 22 de Março de 1846, quando uma turba de camponesas se opôs ao enterro de uma sua conterrânea no adro da igreja. Armadas de foices, chuços e varapaus, escorraçaram o sacerdote, o delegado médico e os coveiros e carregaram aos ombros a defunta até à igreja de Fontarcada, onde elas mesmas a sepultaram. Desde então, muitas foram as situações semelhantes que se repetiram pelo concelho, para desagrado do seu governante.
Entretanto, este mandou prender várias mulheres que tomava por cabecilhas dos tumultos, o que mais incendiou os ânimos das revoltosas. Foi então que, numa manhã fria de Primavera, uma chusma de populares, empunhando os seus habituais instrumentos de lavoura, assaltaram a cadeia, libertando as prisioneiras. À frente, a chefiar as amotinadas, seguia, destemida, Maria Angelina, que se destacou das demais pela sua valentia, pelo vermelho do colete que envergava, e pelos brados de abaixo os Cabrais! e viva a rainha! Depois, foi o inferno, com as mulheres e correrem à casa do biltre, a queimarem-lhe os papéis e a ameaçarem fazer o mesmo à sua casa. Exasperado, Ferreira Melo, que se tinha refugiado noutro local, pediu auxílio militar à capital de distrito. Tardando a ajuda e sucedendo-se os acontecimentos, a exaltação popular foi crescendo de tom. Como fogo em palha seca, os levantamentos alastraram-se a outras terras minhotas, mais tarde, à província vizinha de Trás-os-Montes, e, por fim, às Beiras e à Estremadura, granjeando adeptos e chamando a atenção dos partidários de e1-rei Miguel, então exilado em Londres». In Maria João Fialho Gouveia, Maria da Fonte, Topseller, 20/20 Editora, 2017, ISBN 978-989-886-955-5. 

Cortesia de Topseller/20/20 E/JDACT 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poesia. Manuel Alegre. «Que mil flores desabrochem. Que mil flores (outras nenhumas) onde amores fenecem que mil flores floresçam onde só dores florescem»

Cortesia de wikipedia e jdact

Natal
«Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era a gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento.
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia».


Flores para Coimbra
«Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.


Última Página
«Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
 
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
 
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
 
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
 
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria.
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus».
Poemas de Manuel Alegre, in “ist”

Cortesia de wikipedia/JDACT

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «Abril anda à solta nos pinhais coroado de rosas e de cio, e num salto brusco, sem deixar sinais, rasga o céu azul num assobio»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nocturnos
«Coaxar de rãs é toda a melodia
que a noite tem no seio,
versos dos charcos
e dos juncos podres,
casualmente, com luar no meio».

Espera
«Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça».

Os Amantes sem dinheiro
«Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,

mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços».

Abril
«Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
onde a voz dos ciganos se perdia».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

Poesia. Rosalía de Castro. «Yo soy libre. Nada puede proteger la marcha de mis pensamientos, y ellos son la ley que rige mi destino»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Oh, no quiero ceñirme a las reglas del arte!
Mis pensamientos son vagabundos, mi
imaginación errante y mi alma sólo se satisface
de impresiones.

Jamás ha dominado en mi alma la esperanza de
la gloria, ni he soñado nunca con laureles que
oprimiesen mi frente. Sólo cantos de
independencia y libertad han balbucido mis
labios, aunque alrededor hubiese sentido,
desde la cuna ya, el ruido de las cadenas que
debían aprisionarme para siempre, porque el
patrimonio de la mujer son los grillos de la
esclavitud.

Yo, sin embargo, soy libre, libre como los
pájaros, como las brisas; como los árboles en el
desierto y el pirata en la mar.

Libre es mi corazón, libre mi alma, y libre mi
pensamiento, que se alza hasta el cielo y
desciende hasta la tierra, sobervio como el
Luzbel y dulce como una esperanza.

Cuando los señores de la tierra me amenazan
con unha mirada, o quieren marcar mi frente
con unha mancha de oprobio, yo me río como
ellos se ríen y hago, en apariencia, mi iniquidad
más grande que su iniquidad. En el fondo, no
obstante, mi corazón es bueno; pero no acato
los mandatos de mis iguales y creo que su
hechura es igual a mi hechura, y que su carne
es igual a mi carne.

Yo soy libre. Nada puede proteger la marcha de
mis pensamientos, y ellos son la ley que rige mi
destino.

Oh mujer! Por qué siendo tan pura vienen a
proyectarse sobre los blancos rayos que despide
tu frente las impías sombras de los vicios de la
tierra? Por qué los hombres derraman sobre ti
la inmundicia de sus excesos, despreciando y
aborreciendo después en tu moribundo
cansancio lo horrible de sus mismos desórdenes
y de sus calenturientos delirios?

Todo lo que viene a formarse de sombrío y
macilento en tu mirada después del primer
destello de tu juventud inocente, todo lo que
viene a manchar de cieno los blancos ropajes
con que te vistieron las primeras alboradas de
tu infancia, y a extinguir tus olorosas esencias y
borrar las imágenes de la virtud en tu
pensamiento, todo te lo transmiten ellos
todo..., y, sin embargo, te desprecian.

Los remordimientos son la herencia de las
mujeres débiles. Ellos corroen su existencia con
el recuerdo de unos placeres que hoy
compraron a costa de su felicidad y que
mañana pesarán sobre su alma como soplo
candente.

Espectros dormidos que descansan impasibles
en el regazo que se dispone a recibir otro
objeto que el que ellos nos presentan, y
abrazos que reciben otros abrazos que
hemos jurado no admitir jamás.

Dolores punzantes y desgarradores por lo
pasado, arrepentimientos vanos, enmiendas de
un instante y reproducciones eternas en la
culpa, y un deseo de virtud para lo futuro, un
nombre honrado y sin mancillar que
poder entregar al hombre que nos pide sinceramente
una existencia desnuda de riquezas, mas
pródiga en bondades y sensaciones vírgenes.

He aquí las luchas precedidas siempre por los
remordimientos que velan nuestro sueño,
nuestras esperanzas, nuestras ambiciones.

Y todo esto por una debilidad!»
Poema de Rosalía de Castro, “Poemas del Alma”

Cortesia PdelAlma/JDACT

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «De mim podia falar-te, mas não sei que dizer-te desta história de maneira que te pareça natural a minha voz»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eugénio de Andrade é, a par de Pessanha, o poeta português mais próximo de uma poesia-música, numa linguagem maximamente cerrada sobre si, ou inesgotável a qualquer paráfrase...» In Óscar Lopes

«Trata-se de um dos maiores líricos da literatura portuguesa, que é também o grande poeta do amor no nosso século XX». In António José Saraiva

(…)
«Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto».

A uma cerejeira em flor
«Acordar, ser na, manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração duma cereja.

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de deixar sós».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «Josefina estava pálida, os lábios arroxeados, os olhos fechados. O médico entrou no quarto e pegou o pulso. Não foi preciso dizer nada. Ela estava morta»

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Norte de Portugal. 1916
«(…) Agora, tudo aquilo seria do filho, ou da filha. Era incrível a esperança que tomava conta do casal. Apesar de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal, e de o Parlamento ter aprovado a entrada no confronto, Manuel tranquilizava a esposa. Ele não seria convocado, as batalhas se davam longe do território português e tinham alimentos suficientes estocados para vários invernos e verões. Josefina acariciava o rosto dele. Ela amava aquele homem forte, tosco, de mais acção que palavras. Ele vivia num mundo de regras próprias. O mundo era a quinta. O território de dentro da casa era chefiado por Josefina, o de fora, por Manuel. Os dois comandantes respeitavam as fronteiras. Enquanto Josefina temia pelo futuro do bebé a caminho, por uma guerra recém-declarada, pelos que seriam obrigados a lutar e a morrer sem convicção, pelos que passariam fome, Manuel amassava as uvas. Nada poderia quebrar, desestruturar a ordem com que ditava a vida. Se, na mais improvável das hipóteses, Portugal fosse invadido, ele poria as tropas alemãs para correr com seu exército de um homem só. Manuel só não estava preparado para a tragédia que aconteceria em seguida.
Josefina não teve forças para abrir os olhos, mas esboçou um sorriso e apertou a mão do marido quando ele levantou da cama ainda com o dia escuro. Manuel acariciou o rosto dela, beijou-lhe a testa e sorriu de volta. Ela não viu, mas sentiu o sorriso dele, já estava embalada no sonho. Um sonho daqueles que, a princípio, trazem conforto e vontade de não voltar. Josefina já não tem mais a barriga, Manuel amassa as uvas, duas meninas correm pela quinta, correm em direcções opostas. Ela não se preocupa porque estão ao alcance da vista. O céu é azul, sem nenhuma nuvem. Ela aproveita ao máximo a sensação de ter todos ali. Subitamente percebe que já é mãe. Serão as meninas suas filhas? De repente, sente um pingo, seguido de outro. Corre, mas não há onde se proteger. Os pingos são vermelhos. Os pingos são vermelhos de sangue. Ela não vê mais as meninas. Manuel espreme as uvas e delas sai o mesmo vermelho de sangue. Ela grita por Manuel. Grita com toda a força. Josefina abriu os olhos. O corpo estava encharcado. Tudo vai ficar bem, minha querida. O doutor está a caminho, disse Manuel, em meio ao abraço.
As palavras saíram sem convicção. Fora tudo muito rápido. Os gritos no quarto, a correria escada acima, a agonia de Josefina. O menino, filho da criada que contratara para ajudar a esposa quando a barriga já atrapalhava os cuidados da casa, brincava entre as parreiras. Da janela mesmo gritara. Voa até a vila e traz o doutor, é caso de vida ou morte..., e diz à tua mãe para vir aqui! O garoto partiu em disparada. Em segundos, a criada estava no quarto. Desapareceu e voltou em seguida trazendo uma bacia com água e muitos panos. Foi nesse momento que Josefina viu o sangue. Os pingos do sonho cobriram a cama de vermelho. Ela gritou. Não era sonho, as meninas desapareceram da sua vista. Tudo ficou subitamente escuro. Josefina estava pálida, os lábios arroxeados, os olhos fechados. O médico entrou no quarto e pegou o pulso. Não foi preciso dizer nada. Ela estava morta.
Temos de salvar a criança! O doutor gritou, enquanto sacava um bisturi da maleta. Não era a primeira cesariana que fazia, mas nunca antes numa mulher sem vida. Fez o corte longitudinal, rápido e preciso. Em menos de um minuto, tirou o bebé. Quem pegou a criança foi o garoto. Manuel já havia deixado o quarto. Não amaria aquela criança. Iria dar-lhe o seu nome, alimentá-la, educá-la, mas amor era algo que tinha secado dentro dele. O médico suava frio, as gotas escorriam pela lateral do rosto. Mal teve tempo de pegar o lenço. Havia outro bebé ali. Assim como a irmã, a segunda menina soltou o choro forte e alto. A sutura foi feita com todo o cuidado. Por um breve instante, pareceu-lhe que Josefina sorria.
E assim Clarice e Olívia vieram ao mundo. Primeiro Olívia, depois Clarice. Ou teria sido primeiro. Clarice e depois Olívia? Eram apenas as gémeas, chamadas pelas cores das roupas que usavam. A de amarelo, a de branco. Ganharam nome quando a avó materna, que morava na cidade da Guarda, na região da Beira Alta, chegou, dois dias depois do nascimento. Mal teve tempo de chorar a filha única. Dava dó ver as meninas berrando de fome, aos cuidados de uma criada sem intimidade com a casa. Tinha arranjado às pressas uma ama-de.leite, mas não era suficiente para os dois pequeninos seres ávidos de vida. Manuel trancou-se no quarto no momento em que ouviu o médico gritar que tinha de salvar a criança. Para ele, Josefina é que tinha de ser salva, era ela que ele amava desde sempre. Filhos eram consequência, a ordem natural das coisas. Josefina era a escolha, a vida a dois, a vida eterna. E não uma, mas duas crianças». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT 

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «Manuel levantou-se com as estrelas ainda no céu. Tinha mais um dia duro pela frente e, em breve, mais uma boca para alimentar»

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«(…) A neta sentou-se. Olívia encostou a cabeça no ombro dela. Descansou o peso das oito décadas. Tita sentiu-se envergonhada. No fundo, tinha ido até ali para chorar, para desabafar a perda. Talvez fosse hora de olhar o mundo sem se colocar no centro dele. Foram segundos de silêncio, as duas olhando para o horizonte. A avó foi a primeira a falar. Perdeu o bebê, não é?, disse, sem encarar a neta, que assentiu com a cabeça. Eu também perdi um bebê, sussurrou, enquanto passava os dedos pela fotografia, como se, dessa forma, pudesse alcançar a criança. Foi só nesse momento que a fotografia amarelada e gasta nas mãos de Olívia chamou a atenção de Tita. Ela reconheceu a avó, ainda jovem. Estava grávida, provavelmente de sua mãe. Mas não reconheceu o homem ao lado dela, nem o menino no colo. Quem eram? Que lugar era aquele? Uma praça numa cidade europeia qualquer, com certeza não era Lisboa, cidade de onde a avó viera. No verso, as palavras num idioma que ela não conhecia. Antwerpen, Familie Zus, Verjaardag Bernardo, drie jaar, 4 Februari 1940.
Tirou a fotografia das mãos da avó, que não ofereceu resistência. Mantinha o olhar fixo, como se estivesse preso a um ponto muito distante, num lugar que só ela conhecia. Avó, quem é este homem? E esta criança? A voz saiu baixa e temerosa. A avó repetiu em português as palavras escritas em flamengo. Antuérpia, família Zus, aniversário de três anos de Bernardo, 4 de Fevereiro de 1940. Em seguida, levantou-se. Fez sinal para que a neta esperasse. Instantes depois, voltou com outra fotografia, da mesma época. Tita reconheceu a avó, o avô António, que morrera antes mesmo de sua mãe nascer, e o tio Luiz Felipe ainda pequeno. Olívia colocou as duas fotografias lado a lado. Depois de um breve silêncio, voltou-se para a neta e apontou primeiro para a que lhe era familiar. Aqui está António, em Portugal, pouco antes de vir para o Brasil, com Luiz Felipe..., ainda bebé. Eu cumpri o prometido e cuidei dele até ao último momento, amei-o mais do que minha própria carne. Pedi tanto que o câncer dele fosse meu, que me levasse e não me fizesse sentir tudo de novo!
Tita ouvia incrédula. A avó pegou, então, a outra fotografia e falou alternando o olhar do retrato para a neta. Este é Theodor, quanta saudade... Fez uma pausa, que mais parecia uma prece, ao olhar o homem alto e magro, para então escorregar os dedos sobre o rosto do menino. E este é Bernardo, que eu não esqueço um minuto que seja. Tita fez menção de falar, mas foi interrompida. A voz da avó saiu embargada, ao mesmo tempo que apontava para a mulher grávida ao lado de Theodor. Esta sou eu, esperando Helena, sua mãe. E, em seguida, apontou para a mulher da outra fotografia, que parecia ser ela também. E esta é Olívia... minha irmã gémea. Eu sou Clarice.

Norte de Portugal. 1916
Manuel levantou-se com as estrelas ainda no céu. Tinha mais um dia duro pela frente e, em breve, mais uma boca para alimentar. Seria pai pela primeira vez e a qualquer momento, prevenira a parteira. A vida corria certeira, no trilho. Ele se casara com Josefina, a mulher que amava. O bebé seria o primeiro de uma grande prole. Era o início da colheita das uvas. Prometia ser boa, a melhor em anos. O tempo definitivamente tinha colaborado. Um Inverno rigoroso, seguido de um Verão com muito sol e um começo de Outono sem chuva. O que mais se podia querer? Os cachos gordos, maduros, estavam prontos para a colheita. A quinta ficava nos arredores de São Lourenço de Sande, no município de Guimarães. A construção em granito fora erguida pelo pai. Cada pedra da casa tinha uma gota de suor do velho Joaquim. A casa de dois andares ficava no centro do terreno, cercada pelas parreiras. Uma a uma plantadas por Joaquim. Quando Manuel nasceu, a mãe passava dos trinta, e Joaquim dos quarenta. A criança ter vingado era um milagre depois de tantos bebés perdidos. O menino cresceu, virou um homem forte, de mãos grandes e calejadas que não fugiam da enxada. O solo seco e poroso da quinta era uma benção para as videiras. As panturrilhas musculosas carregavam os pés largos e achatados de tanto esmagar as uvas na piscina de pedra». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.


Cortesia de SdeEmergência/JDACT