terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um Quarto com Vista. E.M. Foster. «Aquela senhora parece tão inteligente, murmurou a menina Bartlett à prima. Estamos com sorte»

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A Bertolini
«(…) A menina Bartlett, embora perita em habilidades de conversa, sentia-se impotente ante semelhante brutalidade. Era impossível pôr no seu lugar uma pessoa tão grosseira. O seu rosto corou com desagrado. Olhou à volta como se dissesse: vocês são todos assim? E duas velhotas sentadas mais adiante, com os xailes nas costas das cadeiras, olharam para ela, indicando claramente: nós não somos, nós somos bem-educadas. Come. Querida, disse a menina Bartlett a Lucy, e começou a mexer distraidamente a carne que tinha censurado antes. Lucy murmurou que aquela gente em frente parecia muito estranha. Come, querida. Esta pensão é um desastre. Amanhã mudamo-nos. Mas anulou esta drástica decisão mal a tinha anunciado. Os reposteiros ao fim da sala abriram-se e revelaram um sacerdote, gordo mas atractivo, que correu a ocupar o seu lugar à mesa, alegremente, pedindo desculpa por ter chegado tarde. Lucy, que ainda não tinha adquirido maneiras, pôs-se logo de pé e exclamou: oh, oh! Mas é o senhor Beebe! Que bom! Veja, Charlotte, agora temos de ficar, mesmo que os quartos sejam maus. Oh!
A menina Bartlett disse, com mais comedimento: como está, senhor Beebe? Julgo que já se esqueceu de nós, menina Bartlett e menina Honeychurch. Estávamos em Tunbridge Wells quando o senhor ajudou o vigário de St. Peter naquela Páscoa muito fria. O clérigo, que tinha o ar de estar de férias, não se lembrava delas tão claramente como elas se lembravam dele. Mas avançou bastante satisfeito e aceitou a cadeira que Lucy lhe indicou. Estou tão contente de o ver, disse a rapariga, que se encontrava num estado de fome espiritual e teria ficado contente de ver o criado se a prima lho permitisse. Como o mundo é pequeno. E Summer Street também o torna especialmente divertido. A menina Honeychurch vive na paróquia de Summer Street, disse a menina Bartlett, preenchendo o vazio, e acontece que ela me disse por acaso que o senhor acaba de aceitar... Sim, ouvi a minha mãe falar disso na semana passada. Ela não sabia que eu o tinha conhecido em Tunbridge Wells, mas eu mandei-lhe logo uma carta e disse: o senhor Beebe é…Exacto, disse o clérigo. Mudo-me para a reitoria de Summer Street em Junho próximo. Tenho sorte de ter sido nomeado para um bairro tão encantador. Oh, estou tão contente! O nome da nossa casa é Windy Corner. O senhor Beebe fez uma vénia.
Normalmente está lá a minha mãe e eu, e o meu irmão, embora não seja frequente que o possamos levar à i... isto é, a igreja é um bocado longe. Querida Lucy, deixa o senhor Beebe jantar. Estou a jantar, obrigado, e a apreciá-lo. Preferia conversar com Lucy, cuja execução musical recordava, do que com a menina Bartlett, que provavelmente recordava os seus sermões. Perguntou à rapariga se conhecia bem Florença e foi informado pormenorizadamente de que ela nunca lá tinha estado antes. É delicioso aconselhar um novato e ele era o primeiro. Não se esqueça dos arredores, concluiu. Na primeira tarde bonita vá até Fiesole e dê a volta por Settignano. ou mais ou menos. Não!, gritou uma voz do fundo da mesa. Está enganado, senhor Beebe. Na primeira tarde bonita essas senhoras têm de ir a Prato. Aquela senhora parece tão inteligente, murmurou a menina Bartlett à prima. Estamos com sorte». In E.M. Foster, Um Quarto com Vista, 1908, 1978, Relógio D’Água Editores, 2011, ISBN-978-989-641-246-3.

Cortesia de Relógiod’águaEditores/JDACT

Um Quarto com Vista. E.M. Foster. «Uma troca. Os turistas de classe mais alta ficaram chocados e tiveram pena dos recém-chegados. A menina Bartlett, em resposta, abriu a boca o menos possível»

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A Bertolini
«A Signora não podia fazer uma coisa destas, disse a menina Bartlett, de maneira nenhuma. Tinha-nos prometido quartos para sul com vista, e juntos. E em vez disso estamos em quartos para norte, isto são quartos para norte, dão para um pátio e estão muito separados. Oh, Lucy! E além disso é cockney!, disse Lucy, que tinha ficado ainda mais escandalizada pelo inesperado sotaque da Signora. É como se estivéssemos em Londres. Olhou para as duas filas de ingleses sentados à mesa, para a fila de garrafas de água e de vinho tinto que corriam entre eles, para os retratos da falecida rainha e do falecido poeta laureado pendurados atrás, com pesadas molduras, para a nota da igreja anglicana (rev. dr. Eager, Oxford), que era a outra única decoração da parede. Charlotte, não tem também a sensação de que podíamos muito bem-estar em Londres? É-me difícil acreditar que lá fora as coisas sejam muito diferentes. Deve ser por estar tão cansada.
Esta carne com certeza que já foi usada para sopa, disse a menina Bartlett, largando o garfo. Eu queria ver o Arno. Os quartos que a Signora nos prometeu na sua carta dariam para o Arno. A Signora não podia fazer-nos uma coisa destas. Não há direito! A mim, qualquer canto me serve, prosseguiu a menina Bartlett, mas acho realmente uma pena que tu não tenhas um quarto com vista. Lucy sentiu que tinha sido egoísta. Charlotte, não me trate com tantos mimos. A Charlotte também merece ter vista para o Arno. Isso mesmo. O primeiro quarto que vagar para a parte da frente...
Será para ti, disse a menina Bartlett, a quem a mãe de Lucy pagava parte das despesas de viagem, uma generosidade a que ela fazia muitas delicadas referências. Não, não, será para a Charlotte. Insisto. A tua mãe nunca me perdoaria, Lucy. Nunca me perdoaria a mim. As vozes das senhoras animaram-se e, para falar verdade, tornaram-se um pouco insistentes. Estavam cansadas e, sob o disfarce da generosidade, brigavam. Alguns dos companheiros de mesa trocaram olhares e um deles, uma daquelas pessoas mal-educadas que às vezes se encontram no estrangeiro, curvou-se para a frente sobre a mesa e meteu-se na discussão. Disse: o meu quarto tem, o meu tem vista.
A menina Bartlett teve um sobressalto. Geralmente nas pensões as pessoas olhavam-se durante um dia ou dois antes de meterem conversa e muitas vezes só descobriam que deveriam fazê-lo depois de terem partido. Sabia que o intruso era mal-educado mesmo antes de ter olhado para ele. Era um homem idoso, forte, com um rosto claro e bem barbeado e os olhos grandes. Havia qualquer coisa infantil naqueles olhos, embora não fosse a infantilidade da senilidade. A menina Bartlett não se deteve a pensar no que poderia exactamente ser porque o seu olhar se desviou para a sua maneira de vestir, que não lhe agradou nada. Provavelmente ele estava a tentar travar conhecimento com elas antes de elas estarem bem ao corrente de tudo. Assim, quando ele lhe falou ela assumiu uma expressão confusa e disse: vista? Oh. A vista! É uma vista encantadora!
Este aqui é o meu filho, disse o ancião, chama-se George. O quarto dele também tem vista. Ah!, disse a menina Bartlett, sofreando Lucy, que estava prestes a falar. O que eu quero dizer, continuou ele, é que podem ficar com os nossos quartos, e nós ficamos com os vossos. Uma troca. Os turistas de classe mais alta ficaram chocados e tiveram pena dos recém-chegados. A menina Bartlett, em resposta, abriu a boca o menos possível e disse: muito obrigada, mas nem pensar nisso. Porquê?, perguntou o ancião, com os dois punhos na mesa. Porque nem pensar nisso, obrigada. Deve compreender, não gostamos de aceitar..., começou Lucy. A prima conteve-a de novo. Mas porquê?, insistiu ele.
As mulheres gostam de olhar para a vista e os homens não. Bateu com os punhos como um rapazinho travesso e virou-se para o filho: George, convence-as! É óbvio que ficarão com os nossos quartos, disse o filho. Não há mais nada a dizer. Não olhou para elas enquanto falava, mas a sua voz era perplexa e triste. Lucy também estava perplexa, mas viu que estavam metidas naquilo que se chama, uma cena, e teve a estranha sensação de que, dissessem o que dissessem aqueles turistas malcriados, o caso continuaria e aprofundar-se-ia até deixar de ser sobre vistas e quartos, mas sobre..., bem, sobre qualquer coisa completamente diferente, em que ela nunca tinha pensado antes. Agora o ancião atacou a menina Bartlett quase violentamente: porque é que ela não queria trocar de quarto? Que possível objecção tinha? Eles retirariam as suas coisas em meia hora». In E.M. Foster, Um Quarto com Vista, 1908, 1978, Relógio D’Água Editores, 2011, ISBN-978-989-641-246-3.

Cortesia de Relógiod’águaEditores/JDACT

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Bosque da Noite. Djuna Barnes. «Na Viena do tempo de Volkbein havia poucos negócios acolhedores para os judeus. Guido, no entanto, graças a diversas transacções de bens imobiliários, a discretas compras de quadros de antigos mestres…»

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Prosterna-te
«(…) O seu mais triste e fútil gesto consistira em procurar obter o título de barão. Tinha adoptado o sinal da cruz; tinha chegado a dizer-se austríaco de uma antiga linhagem quase extinta, exibindo em apoio da sua história as provas mais espantosas e descabidas: um brasão a que não tinha qualquer direito e uma lista de antepassados (incluindo os seus apelidos cristãos) que nunca haviam existido. Quando Hedvig o interrogara sobre os seus lenços negros e amarelos, afirmara que se destinavam a lembrar-lhe que um ramo da família florescera em Roma. Tentara formar com ela um único ser, adorando-a e imitando o seu andar de ganso, que nele se tornava deslocado e cómico. Ela teria feito outro tanto mas, sentindo nele qualquer coisa de blasfemo e solitário, aparou o golpe como se esperaria de um não-hebreu, aproximando-se dele na aversão. Acreditara em tudo o que ele lhe contara. Perguntava, no entanto, muitas vezes o que se passa?, perpétua critica que pretendia ser um perpétuo apelo para que a amasse, mas que ecoava na vida dele como uma voz acusadora. A braços com o seu tormento, chegara mesmo a celebrar as cabeças coroadas, lançando-lhes elogios com a violência de um jacto de água reforçado pela pressão de um polegar. E rira com todo o gosto quando se achara em presença de detentores de títulos inferiores, como se, por bondade natural, pudesse conceder-lhes qualquer distinção com que tivessem sonhado. Confrontado com nem mais nem menos do que um general vestido de couro rangente e com os movimentos ligeiramente percucientes comuns aos personagens militares, que parecem respirar de dentro para fora, cheirando a pólvora e a carne de cavalo, e que, apesar de letárgicos, estão prontos para participar numa guerra ainda indeterminada (um tipo de homens pelos quais Hedvig sentira muita inclinação), Guido fora sacudido por um tremor invisível. Reconhecia em Hedvig a mesma postura, o mesmo vigor, só que mais condensado, na mão feita num molde mais pequeno, tão sinistra na sua redução como uma casa de bonecas. A pluma no seu chapéu tinha a nitidez de uma faca e tremia como se fosse agitada por um vento heráldico; era um modelo oferecido à Natureza, uma mulher exacta, de seios opulentos, feliz. Olhando-os, Guido ficara perturbado, como se fosse sofrer uma reprimenda, não do oficial, mas de sua mulher.
Quando ela dançava, um pouco estonteada pelo vinho, o pavimento tornava-se um campo de manobras; os seus exercitados calcanhares golpeavam os tacos de madeira do chão; os ombros pareciam tão conscientes de si como os que exibem os galões e as borlas das patentes militares superiores; e a cabeça, voltada para o lado, mantinha a vigilância fria de uma sentinela cujas rondas não estão isentas de apreensão. E, no entanto, Hedvig fazia o melhor que podia. Se existe um chique maciço, ela personificava-o, mas não sem uma vaga inquietação. Se alguma coisa perseguira, sem mesmo disso ter consciência, fora a garantia que Guido lhe dera de ser barão. Acreditava nisso como um soldado, acredita, numa ordem.
Qualquer coisa no seu ser sensível, a que ela não teria concedido, por si, qualquer valor, lho tinha dito sem que pudessem ficar quaisquer dúvidas. Hedvig tornara-se baronesa sem discussão.
Na Viena do tempo de Volkbein havia poucos negócios acolhedores para os judeus. Guido, no entanto, graças a diversas transacções de bens imobiliários, a discretas compras de quadros de antigos mestres e primeiras edições, bem como a operações de câmbio, conseguira obter para Hedvig uma casa no centro da cidade, voltada a norte para o Prater, uma casa vasta, sombria e imponente que se tornou o museu fantástico do seu encontro. Os longos salões rococó, estonteantes de pelúcias e volutas douradas, estavam povoados de fragmentos romanos, brancos e desirmanados: uma perna de atleta, a glacial cabeça semi-voltada de uma matrona ferida no seio, cujas audaciosas órbitas cegas recebiam uma pupila das sombras fugidias, de tal modo que aquilo que olhavam dependia da acção do Sol. O grande salão era em nogueira. Sobre a chaminé estavam suspensos impressionantes exemplares dos brasões dos Médicis e, ao lado, a ave que simboliza a Áustria». In Djuna Barnes, O Bosque da Noite, 1936, 1950, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-161-9.

Cortesia de Relógiod’águaE/JDACT

O Bosque da Noite. Djuna Barnes. «Sem ter ainda filhos aos cinquenta e nove anos, Guido preparara com o seu coração, para a criança que ia nascer»

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Prosterna-te
«Em princípios de 1880, apesar da bem fundada dúvida que tinha sobre a sensatez de perpetuar esta raça que tem o consentimento do Senhor e a desaprovação dos homens, Hedvig Volkbein, mulher vienense de grande energia e beleza marcial, estendida numa cama de dossel de um sumptuoso e espectacular carmesim, o lambrequim marcado com as asas bifurcadas da Casa dos Habsburgo e a capa de cetim da colcha com as armas de Volkbein desenhadas em fios de desbotado ouro maciço, deu à luz, aos quarenta e cinco anos, um filho único, um rapaz, sete dias depois da data prevista pelo médico.
Voltando-se para este campo de batalha, agitado pelo ruído de cavalos matinais na rua em frente, com a grosseira pompa de um general saudando a bandeira, chamou-lhe Felix, lançou-o para fora de si e morreu. O pai da criança desaparecera seis meses antes, vítima da febre. Guido Volkbein, judeu de ascendência italiana, fora ao mesmo tempo um dandy e um apreciador de boa comida que nunca aparecia em público sem que a condecoração referente a uma qualquer distinção perfeitamente desconhecida lhe colorisse a botoeira com a sua discreta fita. Pequeno, rotundo e muito tímido, tinha o ventre ligeiramente proeminente e com uma curva ascendente que realçava os botões do colete e das calças, assinalando o exacto meio do corpo com essa espécie de linha obstétrica que vemos nos frutos, o arco de círculo, inevitável resultado das pesadas rodadas de borgonha, schlagsahne e cerveja.
O Outono, que mais que qualquer outra estação o cercava de reminiscências raciais, o Outono, esse tempo de ansiedade e horror, era, dizia ele, a sua estação. Podia então ser visto a passear no Prater, levando no punho ostensivamente fechado o estranho lenço de linho amarelo e negro que invocava alto e bom som a ordenança de 1468, promulgada por um tal Pietro Barbo, exigindo que, de corda ao pescoço, a raça de Guido corresse no Corso para divertimento da populaça cristã, enquanto as damas de nobre nascimento, assentes em colunas vertebrais demasiado refinadas para poderem estar quietas, se erguiam dos assentos e, na companhia dos cardeais de vestes vermelhas e dos monsignori, aplaudiam com o abandono frio mas histérico de um povo que é injusto e feliz, e o próprio papa se precipitava da sua morada celestial e, através do riso de homem que esquece os anjos, readquiria a sua animalidade. Esta recordação e o lenço que a acompanhava tinham produzido em Guido (como certas flores levadas a um apogeu de extática luxúria que, mal alcançam o seu tipo específico, definham) a substância total do que é ser judeu. Tinha caminhado, ardente, imprudente e maldito, com as pálpebras frementes sobre os olhos espessos, ensombrecidos pela dor de uma participação que, quatro séculos mais tarde, faria dele uma vítima quando sentia na própria garganta o eco do grito que outrora correra sobre a Piazza Montanara: Roba Vecchia!, a degradação à custa da qual os seus haviam sobrevivido.
Sem ter ainda filhos aos cinquenta e nove anos, Guido preparara com o seu coração, para a criança que ia nascer, um coração modelado sobre a sua principal preocupação: a homenagem sem remorsos à nobreza, a genuflexão feita através de uma contracção muscular do corpo perseguido que se deixa cair diante do que é eminente e inacessível, como diante de um grande entusiasmo. Fora isso que dera a Guido, como também daria a seu filho, um pesado sangue interdito.
E tinha sido sem filhos que morrera, se exceptuarmos a promessa suspensa na cintura cristã de Hedvig. Guido vivera como todos os judeus, que, separados do seu povo por acidente ou opção, descobrem que têm de habitar um mundo cujos elementos, precisamente por serem estranhos, forçam o espírito a sucumbir a uma populaça imaginária. Quando um judeu morre apoiado a um seio cristão, morre dilacerado. Apesar de toda a sua agonia, foi sobre um proscrito que Hedvig chorou. Naquele instante o seu corpo tornou-se uma barreira e Guido morreu contra essa parede, perturbado e só. Em vida tinha feito tudo para transpor esse abismo impossível». In Djuna Barnes, O Bosque da Noite, 1936, 1950, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-161-9.

Cortesia de Relógiod’águaE/JDACT

domingo, 20 de agosto de 2017

Raparigas da Província. Edna O’Brien. «Tinha endurecido, por isso ele pôs-lhe uns bocadinhos de manteiga para o embrandecer. Era um ovo de franga que mal ultrapassava o rebordo do oveiro»

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«(…) Há-de matar aqueles arbustos por baixo da janela, mais certo que certo, costumava ela dizer, e certas noites, quando ficava muito zangada, ia lá abaixo em camisa de noite, batia-lhe à porta e perguntava-lhe por que razão não ia fazer aquilo lá fora. Mas Hickey nunca lhe respondia, era muito matreiro. Vesti-me à pressa e, quando me dobrei para chegar aos sapatos, vi cotão, poeira e penas debaixo da cama. Não tinha disposição para limpar o quarto, por isso puxei as cobertas para cima e apressei-me a sair. O patamar estava escuro, como sempre. Uma janela feia, de vitral, dava-lhe um ar fúnebre, como se alguém tivesse acabado de morrer lá em casa. Este ovo vai parecer uma bala, gritou Hickey. Vou já, disse eu. Tinha de me lavar. A casa de banho era fria, ninguém se servia dela. Uma casa de banho ao abandono com uma mancha de ferrugem no lavatório, mesmo por baixo da torneira de água fria, um sabonete cor-de-rosa novinho em folha e um toalhete de lavar a cara entesado, que parecia ter ficado pendurado lá fora toda a noite, à geada.
Resolvi não me ralar e limitei-me a encher um balde de água para a sanita. O autoclismo não funcionava, havia meses que estávamos à espera de um homem para vir arranjá-lo. Fiquei envergonhada quando a Baba, minha amiga da escola, foi lá acima e disse, inevitavelmente: ainda avariado? Em nossa casa as coisas ou estavam estragadas ou não eram usadas. A mamã tinha molas novas e vários rolos de corda nova num guarda-fato, lá em cima; dizia que se as levasse para baixo só serviria para se partirem ou serem roubadas. O quarto do meu pai era mesmo em frente da casa de banho. As suas roupas velhas estavam estiraçadas numa cadeira. Ele não estava ali, mas eu conseguia ouvir-lhe os joelhos a estalar. Os joelhos dele estalavam quando se deitava e se levantava da cama. Hickey chamou-me uma vez mais.
A mamã estava sentada ao pé do fogão a lenha, comendo um bocado de pão às secas. Os seus olhos azuis estavam pequenos e inflamados. Não dormira. Olhava fixamente em frente, para algo que só ela via, para o destino e para o futuro. Hickey piscou-me o olho. Estava a comer três ovos estrelados com várias fatias de bacon curado em casa. Mergulhava o pão na gema de ovo crua e depois chupava-o. Dormiste?, perguntei à mãe. Não. Tu tinhas um rebuçado na boca e eu temia que sufocasses se o engolisses inteiro, por isso fiquei acordada, pelo sim pelo não. Tínhamos sempre rebuçados e tabletes de chocolate debaixo do travesseiro e eu tirara um rebuçado de fruta mesmo antes de adormecer. Coitada da mamã, estava sempre preocupada. Suponho que ficou ali deitada a pensar nele, à espera do ruído de um automóvel a parar na estrada, à espera do rumor dos pés dele na erva molhada e do barulho do ferrolho do portão. Esperando e tossindo. Tossia sempre, quando estava deitada; por isso guardava trapos velhos, que lhe serviam de lenço, numa bolsa de veludo que estava atada a um varão da cama de latão.
Hickey cortou a extremidade do meu ovo. Tinha endurecido, por isso ele pôs-lhe uns bocadinhos de manteiga para o embrandecer. Era um ovo de franga que mal ultrapassava o rebordo do oveiro grande de porcelana. Tinha um ar ridículo, o ovo pequenino no oveiro grande, mas sabia muito bem. O chá estava frio. Posso levar lilases a miss Moriarty?, perguntei à mamã. Sentia vergonha de me aproveitar da infelicidade dela para levar flores à professora, mas queria muito vencer a Baba e tornar-me a queridinha de miss Moriarty. Sim, querida, leva aquilo que quiseres, disse a mamã, distraída. Fui até junto dela, pus-lhe os braços à volta do pescoço e beijei-a. Era a melhor mãe do mundo. Disse-lhe isso e ela estreitou-me durante um minuto, como se não quisesse deixar-me ir. Eu era tudo para ela neste mundo, tudo». In Edna O’Brien, Raparigas da Província, 1960, Relógio D’Água, 2010, ISBN 978-989-641-176-3.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT 

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Deixei que o perfume me envolvesse antes de as retirar para que as enxugassem com toques suaves de uma toalha de linho»

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Constança
Castelo de Toro, Castela, 1328
«(…) Afonso XI afastou-me de si com brusquidão e manteve o riso diabólico. Estremeci e cravei as unhas nas palmas das mãos para travar a minha mente, que já me levava através de uma caverna para um local que nem ousaria nomear, onde o riso do rei ecoava, embora ele, na realidade, apenas se dirigisse para fora da sala. Violante entrou e correu para mim, aproveitando o curto tempo que teríamos a sós, enquanto não aparecesse uma dama de companhia. Abraçou-me. Sentia-me o corpo entesado e frio mas manteve o silêncio, qualquer apreciação da sua parte ao que acabara de acontecer seria um perigo tão grave como se eu falasse das minhas visões, que exaltavam a brutalidade dos meus dias e me traziam prenúncios de futuro. Eram pensamentos inconfessáveis, em tempos de traição e de medo por toda a Ibéria. A ruína era o destino certo para as mulheres que ousassem imaginar demasiado, como eu. Não havia lugar para devaneios no reino de Afonso XI, mesmo que as visões mostrassem a verdade. E também não havia lugar para mais pavores na minha vida.
Deixa-me, ordenei a Violante, em voz contida. Tentei apagar da ideia a visita devastadora, que se mantinha viva, como se o monarca estivesse ali mesmo, a agrilhoar-me os pulsos com correntes de ferro. Persignei-me, cravando o olhar no crucifixo que carregava ao peito, na imagem de ouro com pequenos rubis na coroa de espinhos, o fausto a cobrir o infortúnio, tal e qual os meus dias. Ousava equiparar o seu calvário ao meu por acreditar que, se conseguisse aceitar a minha história com a Sua resignação, seria muito mais suportável o meu percurso. O fervor religioso era o que me sustinha e nunca vi nos lampejos da minha imaginação qualquer blasfémia. Aprendi cedo que a contradição faz parte da vida. Era preciso bater no fundo para recuperar alguma coisa que se assemelhasse à verdade. Eu já há muito que batera no fundo, entre o terror e a rejeição.
Rogo a Deus a felicidade, confiara a Violante, o único ser que me restava naquele lugar. E o poder pensara, sem o dizer, já ciente de que só pela autoridade nos chegaria o respeito dos outros. Aceitai a Sua vontade, Constança, e sereis ditosa, respondera, avara nos desejos. A minha vida não existia para conceber vontades próprias. Mas não deixara de me passar um afago pelos cabelos, talvez para travar qualquer gana de arrebatamento que não era estranho à minha verdadeira natureza desassossegada. E oculta. Assenti, como tinha por hábito, mesmo sabendo que não era verdade. Já me haviam sido dadas quase todas as provações. Por tantas vezes inventara a minha vida, sabendo-me nascida para um destino de grandeza. Mas a realidade sempre me mostrara como não passavam de ilusão os sonhos que se construíam sobre ambições que não eram as nossas.
A luz clara da manhã entrava pela janela, projectando-se sobre os meus pés, assentes na magnífica pele que cobria o chão de pedra dos meus aposentos. Era o final do estio, mas o sol ainda ardia. Violante e as aias, da melhor nobreza de Castela, haviam-me preparado para mais um dia de dissimulação, cobrindo-me o corpo com um vestido de seda lavrada a fio de ouro e entrançando-me o cabelo, caído em ondas, com luminosos aljôfares, trazidos por mercadores do Oriente. Mergulhei as mãos na água de rosas que me era estendida numa taça. Deixei que o perfume me envolvesse antes de as retirar para que as enxugassem com toques suaves de uma toalha de linho. Levantei-me para tomar o meu assento na mesa. Mas antes confirmei ao espelho que voltava a aparentar bem o meu papel, como todos os dias, depois das noites passadas na angústia e na incerteza. Estou pronta, disse, repetindo um dos poucos dizeres que me permitia dirigir aos rostos hostis que via à minha volta. Podeis mandar servir o jantar». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sábado, 19 de agosto de 2017

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Abanei furiosamente a cabeça, tolhida para falar ou fugir dali. Tentei enxotá-lo de mim, esticando os braços para impor maior distância entre os nossos corpos»

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«E não sei qual foi mais desgraçada
se a zelosa esposa desdenhada
se a desditosa e sedutora amante...

Mas Constança, acredito, preferia
ter a morte de Inês, morte sombria
e ser amada do menos um instante!»
Luís de Camões, “Sonetos”

Constança
Castelo de Toro, Castela, 1328
«Libertai-me, senhor. À súplica soltara-se contra a minha vontade. Tentei aparrar-me do abraço forçado do rei de Castela e Leão, que me aprisionava o corpo. Afonso XI passou o rosto pela minha face e aflorou-me os lábios com os seus, enquanto me mantinha as mãos presas como uma condenada. Como vos sinto a falta, Constança, sibilou o jovem monarca, na sua voz suave e enganadora. O hálito quente bafejava-me o pescoço. A minha rejeição foi afrouxando e acabei por deixar-me ir naquela ilusão de bem-querença. A privação de afecto vencera, como de outras vezes, sempre que o rei aparecia do nada, tomando-me nos braços. Eu sabia que aquele roubo de ternura era condenado, mas não encontrava força nem desejo de lhe resistir. A solidão, amargurada e aflita, empurrava-me para o fugaz consolo do calor de uma pele sobre outra, para as suas palavras hábeis, com o suor a escorrer-me pelas costas de mulher-criança, de carne desperta para sensações que amaldiçoavam a alma e fraquejavam os sentidos.
Amava-o, apesar de tudo. Como se podia amar intensamente aos 10 anos, quando se crescera demasiado depressa, atirada com violência para o mundo dos adultos. E amava com a cegueira que a rejeição sempre atiçava. A vossa beleza entontece-me, tornou ele, volvido ainda mais meigo. E conduziu-me a mão pela sua face, de olhos cerrados. Eu abri os meus e demorei-me nele, vendo-o belo e confiando no seu enamoramento, com a escravatura do medo e da ilusão a condicionar-me o raciocínio. Sois minha, disse, repentinamente, alterado o tom de voz para a hostilidade que sempre acabava por se impor, desmoronando-se o fingimento, na dualidade de carácter do homem sinuoso que ocupava o trono de Castela e Leão e inquietava toda a Península.
Abanei furiosamente a cabeça, tolhida para falar ou fugir dali. Tentei enxotá-lo de mim, esticando os braços para impor maior distância entre os nossos corpos, mas nem o rei se afastou nem eu me senti melhor com a minha ousadia: Afonso XI soltava gargalhadas, o rosto contorcido a tomar as feições do Demo. Era esse o papel que melhor lhe assentava, quando deixava cair a máscara e mostrava toda a perfídia de que era feito. Pela frincha da porta, Violante Alarcón, a ama de quem eu bebera o leite, observava-nos. Impossibilitada de vir em meu auxílio, agarrava-se à fé de que o rei nunca fosse longe de mais, servindo-se do meu corpo intocado de donzela». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Raparigas da Província. Edna O’Brien. «O único legume que se plantava era couve. Mas agora eu já falava menos em casamento. Em primeiro lugar porque ele nunca se lavava»

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«Acordei num instante e sentei-me na cama bruscamente. Só quando estou ansiosa é que acordo com facilidade; durante um minuto não percebi por que motivo o meu coração batia mais depressa do que o habitual. Depois lembrei-me. O motivo do costume. Ele não viera para casa. Ao levantar-me, fiquei um instante na beira da cama a alisar a colcha de cetim verde com a mão. Eu e a mãe tínhamo-nos esquecido de a dobrar na noite anterior. Deslizei para o chão devagar e senti o frio do linóleo na sola dos pés. Encolhi os dedos instintivamente. Eu tinha chinelos, mas a mãe queria que os poupasse para quando ia visitar as tias e os primos; também tínhamos tapetes, mas ficavam enrolados e metidos em gavetas até chegarem as visitas de Dublin, no Verão. Calcei os soquetes. Da cozinha vinha um cheiro a bacon frito, mas não me entusiasmou. Depois fui levantar a persiana. Subiu de repente e a fita ficou enrolada em volta dela. Foi uma sorte a mãe já ter ido para baixo, pois ela estava sempre a ensinar-me a levantar as persianas como deve ser, com delicadeza.
O Sol ainda não se erguera e a relva estava salpicada de boninas profundamente adormecidas. Havia orvalho por todo o lado. A erva por baixo da minha janela, a sebe em redor, o arame enferrujado da vedação, mais atrás, e os extensos campos no seu exterior, todos eram afagados por uma névoa delicada e errante. As folhas e as árvores estavam molhadas da neblina, e as árvores pareciam irreais, como se fizessem parte de um sonho. Em torno dos miosótis que despontavam dos lados da sebe viam-se auréolas de água. Água que cintilava como prata. Estava tudo sossegado, perfeitamente sereno. Das montanhas ao longe evolava-se fumo. O dia ia ser quente.
Vendo-me à janela, Bull's-Eye saiu de debaixo da sebe, sacudiu-se para expulsar a água e ergueu para mim o olhar preguiçoso e triste. Era o nosso cão pastor e pus-lhe o nome de Bull's-Eye porque os olhos dele eram às manchas brancas e pretas, como os rebuçados enlatados. Costumava dormir na casa da turfa, mas na noite passada ficou na toca de coelho por baixo da sebe. Ficava sempre lá para estar de guarda quando o papá não dormia em casa. Nem era preciso perguntar, o meu pai não viera para casa. Nesse instante Hickey chamou lá de baixo. Eu estava a despir a camisa de noite e, com ela a passar-me pela cabeça, a princípio não o ouvi. O quê? O que dizes?, perguntei, saindo para o patamar com a colcha de cetim em volta do corpo.
Safa, já estou rouco de dizer isto. Sorriu para mim e perguntou: queres um ovo branco ou castanho para o pequeno-almoço?
Pergunta-me com delicadeza, Hickey, e chama-me amorzinho. Amorzinho. Meu coração. Queridinha. Favo de mel, queres um ovo branco ou um ovo castanho para o pequeno-almoço? Um castanho, Hickey. Tenho um lindo ovinho de franga para ti, disse ele, voltando para a cozinha. Bateu com a porta. A mamã nunca conseguiu habituá-lo a fechar as portas com delicadeza. Era o nosso serviçal e eu amava-o. Para confirmar, disse-o em voz alta à Virgem Maria, que me olhava com frieza de uma moldura dourada. Amo o Hickey, disse eu. Ela não disse nada. Admirava-me que não falasse mais vezes. Uma vez falou comigo e o que disse foi muito íntimo. Aconteceu no meio da noite, quando me levantei para dizer um desejo. Todas as noites me levantava seis ou sete vezes, como um acto de penitência. Tinha medo do inferno. Sim, amo o Hickey, pensei; mas é claro que o que eu queria dizer era que gostava muito dele. Quando tinha sete ou oito anos, costumava dizer que havia de casar com ele. Dizia a toda a gente, incluindo a catequista, que íamos viver na capoeira e tínhamos ovos de borla, e leite e legumes que a mamã nos dava.
O único legume que se plantava era couve. Mas agora eu já falava menos em casamento. Em primeiro lugar porque ele nunca se lavava, exceptuando os borrifos de água da chuva que atirava para a cara à tardinha, debruçando-se sobre o barril. Tinha os dentes verdes e a última coisa que fazia à noite era urinar para uma lata de pêssego que guardava debaixo da cama. A mamã ralhava com ele. Costumava ficar acordada na cama à espera de ele vir para casa, à espera de o ouvir levantar a janela para despejar a lata de pêssego lá para fora, para o lajeado». In Edna O’Brien, Raparigas da Província, 1960, Relógio D’Água, 2010, ISBN 978-989-641-176-3.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Manique do Intendente. Uma Vila Iluminista. «José Manuel Carvalho Negreiros escreveu, em 1792, a “Jornada pelo Tejo”, em que também ele sugere a forma mais correcta e eficaz de construir as novas cidades e reformular as antigas»

jdact e wikipedia

Urbanismo: o Contexto Europeu. A engenharia militar e a tratadística
«(…) Cada povoação teria no centro uma praça, áreas de terra plana e figura quadrilátera, e são como salas da cidade, localizada no centro do quadrado, e cresceria em torno desta de forma igualitária, de modo a todos os pontos se encontrarem à mesma distância da praça principal. As ruas que saem da praça central são consideradas também elas ruas principais, havendo subjacente uma hierarquia viária. As estradas que ligam umas povoações às outras fazem-no em linha recta e partem das suas ruas centrais. As praças teriam dimensões segundo a extensão e importância das povoações (capital, 125 braças de lado; província, 96 braças de lado; vila, 65 braças de lado; paróquia, 36 braças de lado). Relativamente às funções presentes, o autor propõe localizar aí o palácio real, a catedral, o Tesouro Real, a casa do Senado e da Câmara. Outros edifícios que devem ter frente para uma praça, ainda que não necessariamente para a principal, são os conventos, o arsenal das munições reais, as cavalariças militares, os armazéns de contrato real e o açougue. As igrejas paroquiais, os palácios dos fidalgos e os conventos menores, se não tiverem frente para uma praça, deverão situar-se numa das ruas centrais.
Também os edifícios habitacionais teriam medidas estandardizadas e fachadas normalizadas. As casas seriam constituídas por 4 pisos, num total de 75 palmos de altura (16,5 m). Figueiredo Seixas apresenta mesmo desenhos (plantas e alçados) das casas que constituiriam as novas povoações. Na segunda parte do tratado, trata das questões práticas do planeamento e execução do seu projecto. Fala da realização de mapas com o levantamento das situações existentes, e do seu cruzamento com a situação ideal, de forma a ir substituindo edificações e regularizando as ruas e praças. Esses mapas teriam também a função de re-distribuir os terrenos pelos proprietários, sem prejuízo para ninguém. Acredita que é possível em 40 anos ter todo o reino arruado da forma que propõe. Descreve igualmente nesta parte do tratado como fazer a quadrícula no terreno, usando diversos instrumentos, superando os obstáculos, como desníveis do terreno e linhas de água.
José Manuel Carvalho Negreiros escreveu, em 1792, a Jornada pelo Tejo, em que também ele sugere a forma mais correcta e eficaz de construir as novas cidades e reformular as antigas, onde a tónica assenta numa perspectiva de desenvolvimento das actividades económicas, melhoria das condições de vida dos cidadãos, em suma, progresso do país, os motivos que devem interessar a todo o bom Patriota. Paulo Varela Gomes refere que as ideias e projectos do urbanismo de JMCN distinguem-se do Tratado de Ruação de Seixas por um realismo muito maior; Carvalho Negreiros menciona a adequação aos lugares (climas, solos e água), prevê canalizações, aquedutos, fossas.
O autor descreve o modo como devem ser construídos alguns equipamentos públicos (Alfândega, Açougue, Cadeia, Casa de Câmara, Igreja, Palácio Real, com particular atenção aos aquartelamentos militares), como se devem constituir as povoações e os terrenos agrícolas, aproveitando os baldios improdutivos. Descreve em termos gerais a constituição de habitações para pessoas de ocupações e condições variadas. Alonga-se a explicar o funcionamento da casa para um lavrador, com as suas diversas dependências agrupadas em torno de pátios. Relativamente às estradas, fala de materiais, de modos de construção, do escoamento das águas, da existência de passeios lajeados, guarnecidos de árvores e de chafarizes e de dimensões: a rua teria 40 palmos (8,8 m) e cada um dos passeios laterais 10 palmos (2,2 m).
O objectivo era torná-las o mais próximo possível da linha recta, sem grandes desníveis, cómodas aos viajantes. Para ele o sistema viário é preponderante e refere que alguns povos, como os romanos, e nações estrangeiras já tiveram essa preocupação. Menciona ingleses, franceses e espanhóis, elogiando no último caso a obra do monarca Carlos III. As praças são também um elemento indispensável, por questões de segurança sísmica e de protecção contra incêndios (o terramoto de 1755 estava ainda bem presente, nas suas consequências desastrosas) e desafogo dos habitantes no interior das povoações. Carvalho Negreiros sugere igualmente a sua existência em estradas rurais. As praças, excepção feita às destinadas a exercícios militares, deviam ser ornadas com colossos, pirâmides, colunas, chafarizes, e fachadas de Palácios e Igrejas, assim como edifícios públicos de variadas qualidades. Mas existirão praças com diferentes usos (comércio de produtos frescos, feiras, artesãos), e uma hierarquia implícita a esses usos. Também as ruas devem ser hierarquizadas por funções, havendo ruas dedicadas a diferentes artesãos e comerciantes, assim como ruas nobres». In Cátia Gonçalves Marques, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Junho de 2004.

Cortesia de FCTUC/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Frequentávamos a mesma escola, e da parte dele eu sentia um misto de protecção e ciúme. Eu lhe servia como mensageira para possíveis namoradinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu corria para lá logo que a aula terminava. Ali, eu renascia. Que prazer eu tinha! Primeiro, por ajudar a mãe, o que era delicioso. Depois, porque gostava do trabalho. Minha mãe não parava, passava de uma cliente para outra, mesmo tendo quatro funcionárias. Fazíamos cabelo, estética, maquiagem... E definitivamente posso dizer que, em Sirte, as mulheres, por mais que se escondam atrás do véu, têm sofisticação e exigência incríveis. A minha especialidade era depilação de rosto e sobrancelha com fio de seda, sim, um simples fio que eu enlaçava entre os dedos e movimentava bem rápido para arrancar os pelos. Bem melhor que pinça ou cera. E então eu preparava o rosto para a maquiagem, passava base; minha mãe fazia a parte mais geral, trabalhava os olhos, daí chamava: Soraya! O toque final! Então eu passava o batom, dava uma olhada no conjunto e acrescentava uma gota de perfume.
O salão logo se tornou o ponto de encontro das mulheres chiques da cidade. Portanto, daquelas do clã de Kadafi. Quando havia eventos internacionais em Sirte, mulheres de diferentes delegações vinham-se embelezar, esposas de presidentes africanos, de chefes de Estado europeus e americanos. É engraçado, mas lembro muito bem da mulher do presidente da Nicarágua, querendo que eu lhe desenhasse olhos imensos sob um coque enorme... Certa vez, Judia, a chefe de protocolo da esposa do Guia, apareceu num carro procurando a mãe para pentear e maquilhar a sua patroa. Era a prova de que minha mãe adquirira grande reputação! Ela foi e passou horas ocupando-se de Safia Farkash, que lhe pagou um valor ridículo, muito abaixo do preço normal. Minha mãe ficou furiosa, sentiu-se humilhada. Então, quando Judia veio procurá-la da próxima vez, ela pura e simplesmente recusou, alegando estar com excesso de trabalho. Noutra ocasião chegou a esconder-se, encarregando-me de dizer que não estava. Minha mãe tinha personalidade. Jamais se curvava.
As mulheres da tribo de Kadafi eram em geral detestáveis. Se eu me dirigisse a uma delas para perguntar, por exemplo, se desejava um corte ou uma pintura, ela me olhava com desdém: quem é você para me dirigir a palavra? Certa manhã, umas delas chegou ao salão elegante, sunptuosa. Fiquei fascinada com o seu visual. Como a senhora é linda!, disse espontaneamente. Ela me respondeu com uma bofetada na cara. Fiquei estarrecida e corri para contar à mãe, que murmurou entre os dentes: cala a boca. A cliente tem sempre razão. Três meses depois, vi, angustiada, a mesma mulher abrir a porta do salão. Ela veio até mim, disse que a sua filha, que tinha a minha idade, acabara de morrer de cancro e me pediu desculpas. Foi ainda mais inesperado que a bofetada.
Outra vez, uma moça que se ia casar reservou o salão para o dia da noiva. Adiantou uma pequena parte e depois cancelou. Como a mãe se recusou a reembolsá-la, ela ficou possessa. Urrava, destruindo tudo que visse pela frente, e contou ao clã de Kadafi, que apareceu em peso e acabou com o salão. Um de meus irmãos chegou para acudir e foi espancado. Quando a polícia chegou, ele é quem foi para a cadeia. Os Kadafi fizeram de tudo para que ele ficasse preso o maior tempo possível, e foi preciso uma longa negociação entre tribos para que se chegasse a um acordo, seguido de perdão. Ele foi libertado depois de seis meses, com a cabeça raspada e o corpo coberto de hematomas. Tinha sido torturado. E, apesar do acordo, os Kadafi, que estavam à frente de todas as instituições de Sirte, incluindo a autarquia, ainda se juntaram para impor o fecho do salão por um mês. Fiquei revoltada.
Meu irmão mais velho, Nasser, me dava um pouco de medo e mantinha comigo uma relação de autoridade. Mas Aziz, nascido um ano antes de mim, era como um irmão gémeo, um verdadeiro cúmplice. Frequentávamos a mesma escola, e da parte dele eu sentia um misto de protecção e ciúme. Eu lhe servia como mensageira para possíveis namoradinhas. Já eu nem sonhava com o amor. De forma nenhuma. Nem me ligava nessas coisas. Era virgem por inteiro. Talvez eu mesma me censurasse, sabendo que minha mãe era dura e muito severa. Não sabia de nada. Não havia nem uma conversinha, por menor que fosse. Nada que mexesse comigo. Nem o menor sonho. Acho que vou-me arrepender a vida toda por não ter tido amores adolescentes. Eu sabia que um dia me casaria, porque era esse o destino das mulheres, e que então deveria maquilhar-me e me fazer bonita para o meu marido. Mas não sabia nada além disso. Nem do meu corpo, nem de sexualidade. Que pânico senti quando menstruei pela primeira vez! Corri para contar à minha mãe, que não me explicou nada. E passou a ser uma vergonha para mim quando a TV exibia comerciais de absorventes íntimos. Que embaraço sentia ao ver aquelas imagens na presença de rapazes da família... E lembro-me da minha mãe e das minhas tias dizendo-me: quando tiver dezoito anos, vamos-lhe contar umas coisas... Que coisas? Coisas da vida. Não tiveram tempo. Muamar Kadafi adiantou-se. Ele me triturou». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Declaravam-se aristocratas, famílias da corte, diante dos jecas e caipiras das outras cidades. Você é de Zliten? Grotesco! De Benghazi? Ridículo. Da Tunísia? Que vergonha!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era ela quem acabava arcando com as contas da família. Ralava dia e noite, sempre à espera de algo que nos levasse para bem longe da Líbia. Eu sabia que ela era diferente das outras mães, e por isso começaram a tratar-me com desprezo na escola, eu era a filha da tunisiana. Isso magoava-me. Os tunisianos eram tidos como modernos, emancipados, e em Benghazi, acredite se quiser, essas qualidades não eram bem-vistas. E eu, tola, senti-me depreciada. Desejava que meu pai tivesse escolhido como esposa alguém do próprio país. Por que foi casar-se logo com uma estrangeira? Não pensou nos filhos? Meu Deus, como eu era idiota!
Quando eu estava com onze anos, o pai anunciou que nos mudaríamos para Sirte, cidade também da costa mediterrânea, entre Benghazi e Trípoli. Ele queria aproximar-se do berço familiar, de seu pai, um homem muito tradicional, que tinha quatro esposas, de seus irmãos e primos. Na Líbia é assim: as famílias procuram formar grupos em torno do mesmo bastião, que supostamente lhes dará força e sustentação incondicionais. Em Benghazi, sem raízes nem relações, éramos como órfãos. Pelo menos foi assim que o pai nos explicou. Mas para mim a notícia foi uma catástrofe. Deixar a escola? Minhas amigas? Que drama! Fiquei doente. Doente de verdade. De cama por duas semanas. Incapaz de me levantar para ir à nova escola. E então finalmente eu fui. Com o coração apertado. E logo percebendo que não seria feliz. Antes de tudo, tenho de dizer que aquela era a cidade natal de Kadafi. Ainda não falei da figura porque não se tratava de uma preocupação nem de tema de conversa em casa. A mãe nitidamente o detestava. Mudava de canal sempre que ele aparecia na TV, referia-se a ele como o descabelado e repetia, sacudindo a cabeça: francamente, esse tipo lá tem cara de presidente? O pai, penso eu, tinha medo e mantinha-se mais reservado. Intuitivamente, todos nós percebíamos que, quanto menos se falasse dele, melhor seria; o menor assunto que saísse do núcleo familiar poderia passar de boca em boca e nos trazer grandes problemas. Sem fotos dele em casa e sobretudo sem militância. Digamos que, por instinto, éramos todos cautelosos.
Na escola, em contrapartida, era uma adoração. A sua imagem era onipresente; cantávamos o hino nacional todas as manhãs diante de um imenso póster de Kadafi ao lado da bandeira; diziam todos, entusiasmados: tu és nosso Guia, marchamos atrás de ti, blá-blá-blá; e, fosse na sala de aula ou no intervalo, os alunos se gabavam de meu primo Muamar, meu não-sei-o-quê Muamar, enquanto os professores falavam dele como um semideus. Não, como um deus. Ele era bom, zelava pelas crianças, tinha todos os poderes. Devíamos todos chamá-lo de pai Muamar. A sua estatura parecia-nos gigantesca. Havíamos-nos mudado para Sirte para ficar perto da família e nos sentir mais integrados no seio da comunidade, mas não valeu a pena. As pessoas de Sirte, aureoladas por seu parentesco ou proximidade com Kadafi, achavam-se donas do universo.
Declaravam-se aristocratas, famílias da corte, diante dos jecas e caipiras das outras cidades. Você é de Zliten? Grotesco! De Benghazi? Ridículo. Da Tunísia? Que vergonha! A mãe, decididamente, não importava o que fizesse, seria alvo de humilhação. E quando abriu, no centro da cidade, não muito longe de casa na Rua Dubai, o seu lindo salão de beleza, que as elegantes de Sirte passaram a frequentar, o desprezo só aumentou. Apesar de tudo, ela tinha talento. Todos reconheciam a sua habilidade em fazer os mais belos penteados da cidade e maquiagens fabulosas. Aliás, tenho a certeza de que era invejada. Mas não imagina como Sirte é massacrada pela tradição e pelo excesso de pudores. Uma mulher sem véu pode ser insultada na rua. E, mesmo com véu, é suspeita. Que diabos faz aqui fora? Não estará atrás de aventura? Será que tem um caso? As pessoas espionavam-se, os vizinhos observam as idas e vindas na casa da frente, as famílias sentem inveja umas das outras, protegem as suas filhas e falam mal das outras. A máquina de intrigas fica ligada o tempo todo.
Na escola, o problema era dobrado. Eu não era só a filha da tunisiana, mas também a menina do salão. Eu procurava um banco e ficava ali sozinha, sempre esquiva. E nunca poderia ter uma amiga líbia. Um pouco mais tarde, felizmente, simpatizei com uma garota que era filha de um líbio e de uma palestina. Depois, com uma marroquina. Então, com a filha de um líbio e de uma egípcia. Mas com as meninas da terra, jamais. Mesmo quando certa vez menti, dizendo que minha mãe era marroquina. Parecia-me menos grave que tunisiana. Foi pior. Minha vida então passou a girar quase que só em torno do salão de beleza. O salão virou o meu reino». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Acho que tenho um dom para captar o gestual e as expressões alheias. Juntas, chorávamos de tanto rir»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nasci em Marag, povoado da região de Jebel Akhdar, a montanha Verde, não muito distante da fronteira com o Egipto. Era 17 de Fevereiro de 1989. Sim, 17 de Fevereiro! Para os líbios, é impossível ignorar essa data: foi o dia em que eclodiu a revolução que tirou Kadafi do poder, em 2011. Noutras palavras, um dia destinado a feriado nacional, ideia que muito me agrada. Três irmãos vieram antes de mim, e outros dois nasceram depois, assim como uma irmãzinha. Mas eu fui a primeira menina, e meu pai exultava de alegria. Ele queria uma menina. Queria uma Soraya. Tinha esse nome em mente bem antes de se casar com minha mãe. Ele falou-me muitas vezes da sua emoção no momento em que veio ver-me. Eras bonita! Muito bonita!, sempre dizia. E ficara tão feliz que, no meu sétimo dia de vida, na celebração que se costuma organizar após os nascimentos, ele fez uma festança, como uma festa de casamento. Convidados encheram a casa, tinha música, um grande buffêt... Queria tudo para a filha, as mesmas oportunidades, os mesmos direitos que os filhos teriam. Certa vez chegou a dizer-me que sonhava em ter uma filha médica. Tanto é verdade que no colégio fez com que eu me matriculasse em ciências naturais. Se minha vida tivesse seguido o curso normal, talvez eu tivesse mesmo estudado medicina. Quem sabe? Mas que ninguém me venha falar em igualdade de direitos com meus os irmãos. Ah, isso não! Que nenhuma moça líbia acredite nessa ficção. Basta ver como minha mãe, por mais moderna que seja, acabou por renunciar à maior parte dos seus sonhos.
E ela tinha sonhos enormes. E todos se frustraram. Ela nasceu em Marrocos, terra da avó que tanto adorava. Mas os pais eram tunisianos. Ela tinha bastante liberdade, visto que quando nova fez estágio num salão de beleza em Paris. Isso é que é sonho, não? Foi ali que conheceu meu pai, num grande jantar numa noite do Ramadão. Ele trabalhava na embaixada da Líbia e também adorava Paris. A atmosfera era tão leve, tão alegre em comparação com o clima de opressão na Líbia. Ele até pôde fazer cursos na Aliança Francesa, como lhe propuseram, mas era muito ansioso e preferia sair, passear, aproveitar cada minuto de liberdade, ver tudo o que era possível. Hoje ele se arrepende de não saber falar francês. Isso sem dúvida teria mudado a nossa vida. Em todo o caso, quando ele conheceu a mãe, não teve dúvida. Pediu a mão dela em casamento, que ocorreu em Fez, onde ainda morava a avó dela. E então o que aconteceu? Ele a levou de volta, todo orgulhoso, para a Líbia.
Que choque foi para a minha mãe! Ela jamais imaginara viver na Idade Média. Ela que era tão vaidosa, tão preocupada em andar na moda, bem penteada, maquilhada, teve de se esconder atrás de um tradicional véu branco e limitar ao máximo as suas saídas de casa. Ficou feita uma leoa enjaulada. Ela, que sempre se sentira solta, de repente viu-se amarrada. De forma nenhuma aquela era a vida que o pai a fizera imaginar. Ele havia falado em viagens entre a França e a Líbia, do seu trabalho, que ele poderia realizar alternando entre os dois países... E foi assim que, em questão de dias, ela foi parar no país dos beduínos. Entrou em depressão. Então o pai fez de tudo para se mudar com a família para Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, no leste do país. Uma cidade provinciana, mas sempre considerada um pouco rebelde em relação a Trípoli, onde o poder estava instalado. Ele não podia levá-la a Paris, para onde continuava viajando com frequência, mas pelo menos ela estaria morando numa cidade grande, não precisaria usar o véu e poderia até trabalhar como cabeleireira num salão que abriria em casa. Como se isso fosse consolá-la... Ela continuou deprimida e sonhando com Paris. Contava para nós, seus filhos, dos passeios pela Champs-Elysées, dos chás com as amigas no terraço dos cafés, da liberdade dos franceses. Falava também da protecção social, dos direitos dos sindicatos, de como a imprensa podia ser audaciosa. Paris, Paris, Paris... Isso acabou nos fazendo mal, mas por culpa do meu pai. Ele tinha a ideia de abrir um pequeno negócio em Paris, um restaurante no 15º arrondissement, que a mãe poderia tocar. Acontece que ele logo brigou com o sócio, e o plano foi por água-abaixo. Também deixou de comprar um apartamento na Défense. Na época, custava vinte e cinco mil dólares. Faltou-lhe coragem, e até hoje se lamenta por isso.
São, portanto, de Benghazi as minhas primeiras lembranças da escola. Elas estão um pouco confusas na memória, mas lembro que foi um tempo muito feliz. A escola chamava-se Os Leõezinhos da Revolução, e eu tinha quatro amigas inseparáveis. Eu era a palhaça do grupo, minha especialidade era imitar os professores quando eles deixavam a sala, ou fazer macaquices atrás do director. Acho que tenho um dom para captar o gestual e as expressões alheias. Juntas, chorávamos de tanto rir. Eu podia tirar zero em matemática, mas era a melhor em língua árabe. O pai não ganhava bem. E o trabalho da mãe tornou-se indispensável». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Clube da Felicidade e da Sorte. Amy Tan. «O Clube foi uma ideia que minha mãe engendrou nos primeiros dias, do seu primeiro casamento em Kweilin, antes dos japoneses chegarem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A velha lembrou-se de um cisne que comprara há muitos anos atrás, em Shangai, por uma barganha. Este pássaro, contou-lhe o vendedor, foi certa vez um pato que esticara o pescoço na esperança de tornar-se um ganso, e agora, veja!, era belo demais para ser comido. Então a mulher e o cisne velejaram o oceano muitas li milhas à distância, esticando seus pescoços em direcção à América. Em sua jornada, ela sussurrou para o cisne: na América, eu terei uma filha assim como eu. Mas lá, ninguém dirá que o seu valor é medido pela altura do arroto do seu marido. Lá, ninguém a verá por cima, porque a farei pronunciar apenas um perfeito inglês americano. E lá, ela estará sempre tão satisfeita que não engolirá qualquer tristeza! Ela saberá o que lhe quero dizer, porque lhe darei este cisne, uma criatura que se tornou muito mais do que esperava. Mas quando ela chegou ao novo país, os oficiais da imigração tiraram-lhe o cisne, deixando a mulher agitando os braços e com apenas uma pena de lembrança. Então, ela teve que preencher tantos formulários que esqueceu a razão de sua vinda e o que deixara para trás. Agora, a mulher estava velha. E tinha uma filha que crescera falando somente inglês e engolindo mais coca-cola do que tristeza. Agora, por um longo tempo, a mulher quis dar à filha a única pena de cisne e dizer-lhe: esta pena pode parecer sem valor, mas vem de muito longe e carrega consigo todas as minhas boas intenções. E ela esperou, ano após ano, pelo dia em que poderia dizer isto à sua filha num perfeito inglês americano.
Meu pai pediu-me para ocupar o quarto canto do Clube da Felicidade e da Sorte. Estou para substituir a minha mãe, cuja cadeira na mesa de mah-jong tem estado vazia desde que ela morreu, dois meses atrás. Meu pai acha que ela foi morta pelos seus próprios pensamentos. Ela tinha uma nova ideia na cabeça, disse meu pai. Mas antes que pudesse sair da sua boca, o pensamento ficou tão grande que explodiu. Deve ter sido uma ideia muito ruim. O médico disse que ela morreu de um aneurisma cerebral. E as suas amigas do Clube da Felicidade e da Sorte disseram que morreu como um coelho: rápido e com negócios inacabados deixados para trás. Minha mãe supostamente seria a anfitriã do próximo encontro do clube. Na semana antes da sua morte, ela chamou-me, cheia de orgulho, cheia de vida: tia Lin cozinhou sopa de feijões vermelhos para o clube. Eu vou cozinhar sopa de sementes pretas de Sézamo. Não se exiba, disse. Não é exibição. Ela disse que as duas sopas eram quase iguais, chabudwo. Ou talvez tenha dito butong, não era a mesma coisa de todo. Era uma daquelas expressões chinesas que significam a melhor parte de intenções misturadas. Nunca consigo lembrar-me de coisas que não entendo em primeiro lugar.
Minha mãe começou a versão do Clube da Felicidade e da Sorte de San Francisco em 1949, dois anos antes de eu nascer. Este foi o ano em que a minha mãe e o meu pai deixaram a China com um baú de couro repleto apenas de vestidos de seda enfeitados. Não houve tempo para empacotar mais nada, explicou a mãe ao meu pai depois que eles embarcaram no navio. Ainda assim, ele deslizava freneticamente as mãos entre as sedas escorregadias procurando pelas suas camisas de algodão e cuecas de lã. Quando chegaram a San Francisco, meu pai a fez esconder aquelas roupas brilhantes. Ela usou o mesmo vestido chinês marrom-axadrezado até que a Associação de Boas-Vindas aos Refugiados lhe deu dois vestidos em segunda mão, todos muito largos no tamanho para mulheres americanas. A Associação era composta por um grupo de senhoras missionárias americanas de cabelos brancos, da Primeira Igreja Baptista Chinesa. E por causa dos seus presentes, meus pais não poderiam recusar o convite para se juntarem à igreja. Nem ignorar o conselho prático daquelas senhoras para aperfeiçoarem o seu inglês através de estudos da Bíblia em aulas nas quartas-feiras à noite, e mais tarde, através da prática do coro nos sábados pela manhã. Foi assim que meus pais encontraram os Hsus, os Jongs e os St. Clairs. Minha mãe podia sentir que as mulheres destas famílias também possuíam tragédias indizíveis que deixaram para trás na China, e esperanças que não conseguiriam começar a expressar no seu inglês frágil. Ou no mínimo, a minha mãe reconheceu o entorpecimento nos rostos dessas mulheres. E ela viu quão rapidamente seus olhos moveram-se quando contou-lhes a sua ideia para o Clube da Felicidade e da Sorte.
O Clube foi uma ideia que minha mãe engendrou nos primeiros dias, do seu primeiro casamento em Kweilin, antes dos japoneses chegarem. É por isso que penso no Clube da Felicidade e da Sorte como a sua estória de Kweilin. Era a estória que ela sempre me contava quando estava entediada, quando não havia nada mais a fazer, quando cada tigela havia sido lavada e a mesa de fórmica tinha sido limpa duas vezes, quando o meu pai se sentava para ler o jornal fumando um cigarro Pall Mall atrás do outro, um aviso para não ser perturbado». In Amy Tan, 1989, Editora Rocco, 1994, ISBN 978-853-250-044-1.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Não se sabe donde vem; pode-se supor que, seguindo por incertos corredores, contornou a sala onde as personagens estão reunidas e onde trabalha o pintor; talvez estivesse, há pouco, também ele à frente da cena»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ora, o nome próprio, nesse jogo, não passa de um artifício: permite mostrar com o dedo, quer dizer, fazer passar sub-recpticiamente do espaço onde se fala para o espaço onde se olha, isto é, ajustá-los comodamente um sobre o outro como se fossem adequados. Mas, se se quiser manter aberta a relação entre a linguagem e o visível, se se quiser falar não de encontro a, mas a partir da sua incompatibilidade, de maneira que se permaneça o mais próximo possível de uma e de outro, é preciso então pôr de parte os nomes próprios e meter-se no infinito da tarefa. É, talvez, por intermédio dessa linguagem nebulosa, anónima, sempre meticulosa e repectitiva, porque demasiado ampla, que a pintura, pouco a pouco, acenderá as suas luzes. É preciso, pois, fingir não saber quem se reflectirá no fundo do espelho e interrogar esse reflexo ao nível da sua existência. De início, ele é o verso da grande tela representada à esquerda. O verso ou, antes, a face dianteira, pois que mostra de frente o que ela, por sua posição, esconde. Ademais, opõe-se à janela e a reforça. Como ela, é um lugar-comum ao quadro e ao que lhe é exterior. A janela, porém, opera pelo movimento contínuo de uma efusão que, da direita para a esquerda, agrega às personagens atentas, ao pintor, ao quadro, o espectáculo que contemplam; já o espelho, por um movimento violento, instantâneo e de pura surpresa, vai buscar, à frente do quadro, aquilo que é olhado mas não visível, a fim de, no extremo da profundidade fictícia, torná-lo visível mas indiferente a todos os olhares. O pontilhado imperioso que está traçado entre o reflexo e o que ele reflecte corta perpendicularmente o fluxo lateral da luz. Enfim, e é a terceira função desse espelho, ele põe em paralelo uma porta que, como ele, se abre na parede do fundo. Também ela recorta um rectângulo claro, cuja luz fosca não se irradia pela sala. Não passaria de uma placa dourada, não estivesse ela aberta para fora através de um batente esculpido, da curva de uma cortina e da sombra de vários degraus. Aí começa um corredor; mas, em vez de se perder em meio à obscuridade, ele se dissipa num brilho amarelo, cuja luz, sem entrar, rodopia em torno de si mesma e repousa. Sobre esse fundo, ao mesmo tempo próximo e sem limite, um homem destaca a sua alta silhueta; ele é visto de perfil; com uma das mãos retém o peso de um cortinado; seus pés estão pousados sobre dois degraus diferentes; tem o joelho dobrado. Talvez vá entrar na sala; talvez se limite a espiar o que se passa no interior, contente de surpreender sem ser observado. Tal como o espelho, fixa o verso da cena: tanto quanto ao espelho, ninguém lhe presta atenção.
Não se sabe donde vem; pode-se supor que, seguindo por incertos corredores, contornou a sala onde as personagens estão reunidas e onde trabalha o pintor; talvez estivesse, há pouco, também ele à frente da cena, na região invisível que é contemplada por todos os olhos do quadro. Como as imagens que se distinguem no fundo do espelho, é possível que ele seja um emissário desse espaço evidente e escondido. Há, no entanto, uma diferença: ele está ali em carne e osso; surgiu de fora, no limiar da área representada; ele é indubitável, não um reflexo provável, mas uma irrupção. O espelho, fazendo ver, para além mesmo dos muros do ateliér, o que se passa à frente do quadro, faz oscilar, na sua dimensão sagital, o interior e o exterior. Com um pé sobre o degrau e o corpo inteiramente de perfil, o visitante ambíguo entra e sai ao mesmo tempo, num balancear imóvel. Ele repete, sem sair do lugar, mas na realidade sombria do seu corpo, o movimento instantâneo das imagens que atravessam a sala, penetram no espelho, nele se reflectem e dele ressaltam como espécies visíveis, novas e idênticas. Pálidas, minúsculas, essas silhuetas no espelho são recusadas pela alta e sólida estatura do homem que surge no vão da porta.
Cumpre, no entanto, retornar do fundo do quadro em direcção à frente da cena; é preciso abandonar esse circuito cuja voluta se acaba de percorrer. Partindo do olhar do pintor que, à esquerda, constitui como que um centro deslocado, distingue-se primeiro o reverso da tela, depois os quadros expostos, com o espelho no centro, a seguir a porta aberta, novos quadros, cuja perspectiva, porém, muito aguda, só deixa ver as molduras na sua densidade, enfim, à extremidade direita a janela, ou, antes, a fenda por onde se derrama a luz. Essa concha em hélice oferece todo o ciclo da representação: o olhar, a palheta e o pincel, a tela inocente de signos (são os instrumentos materiais da representação), os quadros, os reflexos, o homem real (a representação acabada, mas como que afastada dos seus conteúdos ilusórios ou verdadeiros que lhe são justapostos); depois, a representação se dilui: só se vêem as molduras e essa luz que, do exterior, banha os quadros, os quais, contudo, devem em troca reconstituir à sua própria maneira, como se ela viesse de outro lugar, atravessando suas molduras de madeira escura». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Mas talvez seja tempo de nomear enfim essa imagem que aparece no fundo do espelho e que o pintor contempla à frente do quadro. Talvez valha a pena fixar de vez a identidade das personagens presentes…»

Cortesia de wikipedia e jdact 

«(…) Ora, ele não faz ver nada do que o próprio quadro representa. Seu olhar imóvel vai captar à frente do quadro, nessa região necessariamente invisível que forma a sua face exterior, as personagens que ali estão dispostas. Em vez de girar em torno de objectos visíveis, esse espelho atravessa todo o campo da representação, negligenciando o que aí poderia captar, e restitui a visibilidade ao que permanece fora de todo olhar. Mas essa invisibilidade que ele supera não é a do oculto: não contorna o obstáculo, não desvia a perspectiva, endereça-se ao que é invisível ao mesmo tempo pela estrutura do quadro e por sua existência como pintura. O que nele se reflecte é o que todas as personagens da tela estão fixando, o olhar recto diante delas; é, pois, o que se poderia ver, se a tela se prolongasse para a frente, indo mais para baixo, até envolver as personagens que servem de modelos ao pintor. Mas é também, já que a tela se interrompe ali, dando a ver o pintor e seu ateliér, o que está exterior ao quadro, na medida em que ele é quadro, isto é, fragmento rectangular de linhas e cores, encarregado de representar alguma coisa aos olhos de todo espectador possível. No fundo da sala, ignorado por todos, o espelho inesperado faz brilhar as figuras que o pintor olha (o pintor e sua realidade representada, objectiva, de pintor trabalhando); mas também as figuras que olham o pintor (nessa realidade material que as linhas e as cores depositaram sobre a tela). Estas figuras são, uma e outra, igualmente inacessíveis, mas de modo diferente: a primeira, por um efeito de composição que é próprio ao quadro; a segunda, pela lei que preside à existência mesma de todo quadro em geral. Aqui, o jogo da representação consiste em conduzir essas duas formas de invisibilidade uma ao lugar da outra, numa superposição instável, e em restituí-las logo à outra extremidade do quadro, a esse pólo que é o mais altamente representado: o de uma profundidade de reflexo na reentrância de uma profundidade de quadro. O espelho assegura uma metátese da visibilidade que incide ao mesmo tempo sobre o espaço representado no quadro e sua natureza de representação; faz ver, no centro da tela, aquilo que, do quadro, é duas vezes necessariamente invisível. Estranha maneira de aplicar ao pé da letra, mas invertendo-o, o conselho que o velho Pachero dera, ao que parece, ao seu aluno, quando trabalhava no ateliér de Sevilha: a imagem deve sair da moldura.
Mas talvez seja tempo de nomear enfim essa imagem que aparece no fundo do espelho e que o pintor contempla à frente do quadro. Talvez valha a pena fixar de vez a identidade das personagens presentes ou indicadas, para não nos atrapalharmos infinitamente nestas designações flutuantes, um pouco abstractas, sempre susceptíveis de equívocos e de desdobramentos: o pintor, as personagens, os espectadores, as imagens. Em vez de prosseguir sem fim numa linguagem fatalmente inadequada ao visível, bastaria dizer que Velásquez compôs um quadro; que nesse quadro ele se representou a si mesmo no seu ateliér, ou num salão do Escorial, a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar, rodeada de aias, de damas de honor, de cortesãos e de anões; que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente, ali, Nieto, no primeiro plano, Nicolaso Pertusato, bufão italiano. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelo ao pintor não são visíveis, ao menos directamente; mas que podemos distingui-las num espelho; que se trata, sem dúvida, do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana.
Esses nomes próprios constituiriam indícios úteis, evitariam designações ambíguas; eles nos diriam, em todo o caso, o que o pintor olha e, com ele, a maioria das personagens do quadro. Mas a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT